Um post escrito com o coração leve e comovido

Baixei da internet “Histórias de cronopios y de famas”, do Cortázar. Em espanhol, porque em Português parece ser impossível.

Primeiro, eu vou colocar um dos contos do livro. Depois, conto uma historinha minha.

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EL CANTO DE LOS CRONOPIOS
Cuando los cronopios cantan sus canciones preferidas, se entusiasman de tal manera que con frecuencia se dejan atropellar por camiones y ciclistas, se caen por la ventana, y pierden lo que llevaban en los bolsillos y hasta la cuenta de los días.
Cuando un cronopio canta, las esperanzas y los famas acuden a escucharlo aunque no comprenden mucho su arrebato y en general se muestran algo escandalizados. En medio del corro el cronopio levanta sus bracitos como si sostuviera el sol, como si el cielo fuera una bandeja y el sol la cabeza del Bautista, de modo que la canción del cronopio es Salomé desnuda danzando para los famas y las esperanzas que están ahí boquiabiertos y preguntándose si el señor cura, si las conveniencias. Pero como en el fondo son buenos (los famas son buenos y las esperanzas bobas), acaban aplaudiendo al cronopio, que se recobra sobresaltado, mira en torno y se pone también a aplaudir, pobrecito.

O canto dos Cronópios

Quando os cronópios cantam suas músicas preferidas, se entusiasmam de tal maneira que com frequência se deixam atropelar por caminhões e ciclistas, caem pela janela, e perdem o que levavam nos bolsos e até a conta dos dias.

Quando um cronópio canta, as esperanças e os famas correm para escutá-lo ainda que não compreendam muito seu arrebatamento e em geral se mostram algo escandalizados. No meio da roda o cronópio levanta seus bracinhos como se sustentasse o sol, como se o céu fosse uma bandeja e o sol a cabeça de Batista, de modo que a canção do cronópio é Salomé nua dançando para os famas e as esperanças que estão aí boquiabertos e perguntando-se se o senhor cura, se as conveniências. Porém como no fundo são bons (os famas são bons e as esperanças bobas), acabam aplaudindo ao cronópio, que se recobra sobressaltado, olha em torno e se põe também a aplaudir, pobrezinho.

(Júlio Cortázar, Historias de cronopios y de famas. Tradução tosca e fuleira, feita por mim. )

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Meu pai era preguiçoso. Gostava de comer na cama, vendo televisão. Mas em alguns dias, raros dias, ele ia até a cozinha, jogava álcool dentro de uma panela e cortava calabreza em rodelas e tacava fogo na panela, fazendo as gorduras da linguiças explodirem longe. Cortava queijo qualho em cubinhos, lambendo os dedos e espalhando migalhas pelo chão da cozinha.

Minha mãe sempre reclamava quando papai pedia pra ela comprar queijo em bloco. Ela preferia comprar queijo já fatiado, porque detestava ficar com o cheiro de queijo nas mãos. Era ela quem lavava os pratos e esfregava a panela empretecida, após o fogareiro de álcool.

Descobri que sou filha de um cronópio e uma fama.

domingo, 15 / julho / 2007 at 3:28 pm 5 comentários

O amor

Pois o amor me ensinou todas as coisas.

O amor me ensinou os meus limites, os meus defeitos. O amor revelou minhas fraquezas, minhas imensas fraquezas, e minha decisão, minha força, meu pode. O amor me fez chorar muitas lágrimas e gritar de prazer.

E este amor é que me preenche. Este amor que pulsa, que palpita, que continua, vivo e forte, apesar dos golpes dolorosos e das sentenças de morte que recebeu. O amor é vivo, o amor é vida, o amor vive e eu vivo de amor.

E eu prossigo. Prossigo chorando meus erros, prossigo ciente dos meus pecados, cônscia de tudo o que não sou. Adiante, adiante, pois a maior beleza de ser humano é a capacidade de recomeçar quando não há mais nada.

E ainda há tanto. Há a lembrança e há a vontade de esquecer. Há a esperança, uma certeza de um futuro que haverá, planos a concretizar, conversas a ter. Ainda há a minha mesma força de sempre, desta vez renovada, mais adulta, mais humilde, mais sincera.

E o amor, a luz do amor resplandecente em mim, este amor pranteado, este amor engraçado, este amor que foi simplesmente o que precisava ter sido. E que ainda é. E que se transforma, agora unilateral, agora existindo apenas em mim, agora cultuado por mim em meu altar individual e secreto.

E há os outros amores, as muitas formas de amar, as outras apostas que fazemos nessa vida de estatísticas. Há os corpos e as almas, há a geografia que atrapalha, mas sempre há a história que precisa ser contada. Há alegria e há arrependimento; mas também existe o perdão . Não tenho medo de conquistar a remissão, sei que há suor a ser entregue, sei que há muito a trabalhar.

Eu vou  em frente. Eu vou amando. Eu vou.

domingo, 1 / julho / 2007 at 1:28 pm 27 comentários

Coisas de Manauara MESMO

Eu não sei explicar como foi. Sei que aqui em Manaus, cachorro-quente se chama Kikão. Não tem nada a ver com o Kiko, amigo do Chaves.

Meu pai roraimense tinha uma explicação mítica. Dizia que, um dia, alguém comprou um cachorro-quente muito grande, que não conseguia nem morder. Esta pessoa teria exclamado: Nossa, QUE CÃO! E aí, ficou sendo kikão. Substantivo.

Eu sorrio quando vejo algumas tabelas de preço.

“Kikão – R$1,00

Kikinho – R$ 0,70″

Minha mãe paraense tem outra explicação, mais taxonômica. Cachorro-quente é pão com picadinho. [Blé, odeio picadinho.] Hot-dog é pão com salsicha. E kikão é pão com salsicha e verdura.

Ahn, e no Amazonas, “verdura” não é pepino, alface, cenoura. Verdura pode ser tempero [cheiro-verde, coentro, cebolinha, cebola, pimentão] ou…bem…o que vem dentro do kikão.

E o que é que vem no kikão? Isso aqui que aparece na foto clicaumentável, ó:

verdura

É repolho cozido, com molho de tomate, milho. Caras, isso é gostoso. Isso é muito gostoso. A gente enche de catchup e maionese, joga queijo ralado por cima. Céus. Eu passo vergonha. Escorre pelas mãos, pela cara. Nham.

Por isso que, quando eu vejo em filme americano os vendedores de hot-dog colocando APENAS uma mísera linha de mostarda, eu fico muito feliz de ter nascido aqui. Em Manaus tem kikão com verdura.

E, como eu já disse antes, eu fui no Festival da Bola da Suframa.  E lá, eu tive mais uma vez a prova que eu posso ter fé na humanidade, que ela nunca vai me decepcionar. Lá, inventaram de vender um cachorro-quente com carne de sol, calabresa, filé… E lá, eu ganhei o dia pois tive a chance de bater ESTA FOTO.

kikarne

National Geographic, me aguarde.

domingo, 10 / junho / 2007 at 2:10 am 33 comentários

O balão vai subindo, sem garoa nenhuma

Manaus foi formada por nordestinos que vieram pra cá nas duas épocas da borracha [1850 e Segunda Guerra] e no boom da Zona Franca e seus zilhões de empregos.

A esmagadora maioria dos amazonenses, se pesquisar com calma, vai encontrar raízes nordestinas na família.

Até a maior festa popular do Estado [O Festival do boi-bumbá de Parintins, dos bois Garantido e Caprichoso], tem origens no bumba-meu-boi do Maranhão. Inclusive, o Festival de Parintins é realizado no período de junho.

Isso gerou um fenômeno curioso em Manaus. Como muita gente vai pra Parintins no Festival, e o festival é na última semana de junho, as festas “juninas” daqui aconteciam em julho e agosto. Praticamente todo fim de semana, um dos bairros fazia arraial, com direito a quadrilha, milho cozido, pamonha(como no Brasil todo)…e também vatapá, churrasco, dança “árabe” e cirandas com meninas mostrando a calcinha. Ahn, e toada de boi-bumbá também.

Ah, Manaus e sua capacidade de ser única.

Há mais ou menos cinco anos atrás, eu reparei que estávamos chegando em SETEMBRO e ainda tinha ensaio do grupo de dança “árabe” que fica perto de casa. Setembro, e ainda tinha festa “junina”.

Aparentemente, o Governo descobriu essa característica das festas daqui, e resolveu arrumar a casa. Há três anos, a Arena do Memorial dos Povos da Amazônia (que vai continuar sendo sempre Bola da Suframa, não tem jeito) abriga o Festival Folclórico do Amazonas.Promovido pelo Governo do Estado, é um mês inteirinho de festa junina. O mês de JUNHO, curiosamente. 😀

Fui lá ontem. Ah, queridos, eu fui lá ontem. [Fotos clicaumentáveis.]
ceu cor de rosa

Teve sol e luz o dia inteiro, pra fazer uma noite clara e quente.

Do lado de fora da Arena, tem as barracas. As barracas juninas. Aquelas, aquelas. A da pescaria…

E as de comida, nham!

Maçã do amor

Como falei anteriormente, a herança cultural daqui é bastante nordestina. Então, não pode faltar vatapá. [Nota curiosa: em Manaus, é muito comum ver vendedores de churrasquinho nas esquinas. Os melhores oferecem a opção de prato completo. Um “prato completo” normalmente inclui um espetinho, arroz, farinha/farofa e uma dose de vatapá.] Aliás, os vendedores de churrasco lá no festival da Bola da Suframa criaram uma solução que eu achei maravilhosa: fazer churrasco na CHAPA, ao invés de na brasa. É por isso que eu amo o povo e a pova. Gente rica não tem esse jogo de cintura.

Prato Completo

Churrasco na chapa

Dentro da arena, a atração principal são as apresentações de grupos folclóricos. E é aí que eu me acabo. Consegui assistir à Ciranda Sedução, do bairro de São Francisco. Linda a ciranda.

[Nota curiosa 2: a ciranda daqui do Amazonas não tem muito a ver com aquela de ciranda-cirandinha. É uma dança tradicional, coreografada, e cheia de particularidades. Por exemplo, as meninas escondem as pernas com polainas, mas mostram a calcinha. Merecia um post só pra explicar pra vocês o que é ciranda…]

ciranda

Eu cantei, dancei, bati palma. Adoro as músicas de ciranda.

“Ciranda, ô ciranda, vamos todos cirandar,

ciranda, ô ciranda, vamos todos cirandar!

Vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar,

vamos dar a volta e meia, cada qual pega o seu par!”

[Nota: NÃO tentem cantar como aquela música de roda. Não é parecida.]

Vamos todos Cirandar

Depois da Ciranda Sedução, houve uma pausa para limpeza da arena. Vi os laranjinhas dando um show…

laranjinhas

E se você não quer ir até as barracas de comida, elas podem vir até você![Eu enlouqueço com esse churrasqueijo!]

Depois ainda teve uma quadrilha cômica [com casamento engraçado]. Mas nenhuma foto ficou boa. E eu dei uma passadinha na barraca das tradições, que é da própria Secretaria Estadual de Cultura. [Sim, a mesma que organiza o Festival de Ópera. Ah, Manaus, Manaus.] Lä tinha cartomante, simpatia da cera da vela pingando, e a explicação sobre os QUATRO santos juninos. Oh, sim, são quatro! Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal.
Fiquei com pena do São Marçal. A hagiografia dele parece piada. “Dizem que ele era o menino que segurava o cesto com cinco pães e dois peixes. Dizem que carregou a bacia com a água que Jesus usou para lavar os pés dos apóstolos.” Pô, ele era um figurante sem fala! Tinha concurso de parlendas também. Olha eu na foto, junto com os atores.

Barraca das tradições

O lugar estava bastante cheio, porém tranquilo.

povão

Os colegas amazonenses do Alexandre estavam presentes, garantindo a segurança de todos e fazendo cara de mau…

PM

Bolo de tapioca é chamado de bolo podre, sabe-se lá o porquê… E o pessoal pode vender bastante bolo de tapioca, em qualquer idioma… 😀 😀 😀

Bolo Pôdi

Além de ciranda e quadrilha, se apresentam também danças nacionais [Dança do Café, dança Gaúcha, dança do Cangaço] , internacionais [“árabe”/ libanesa/ egípcia/ uzbequistanesa, que no final é tudo dança do ventre mesmo, e a dança portuguesa infalível], regionais [Dança do Cacetinho,que é indígena e de luta com porretes. Apesar do nome ridículo, é minha favorita], Bois-Bumbás de Manaus [Corre-Campo, Garrote Estrelinha, Garanhão, Garantido de Manaus]. São mais de cento e vinte atrações.

Em suma: os grupos folclóricos se apresentam, os vendedores garantem uma renda, o povo se diverte, as tradições são passadas adiante…E o Governo fica bem na fita, que ninguém aqui é besta, né mesmo? Panis et Circensis, tudo numa arena só.

Centro Cultural dos Povos da Amazônia

Eu, cá entre nós, acho tudo muito legal e volto lá na semana que vem, antes que o mês acabe! Aguardem Vídeos no YouTube, e um post sobre Ciranda. Não aguardem muito ansiosamente… Mas eu volto.

domingo, 10 / junho / 2007 at 1:54 am 15 comentários

Aviso

Este blog vai ficar bons dias sem ser atualizado com frequência.Vou fazer minha monografia.

Aparecerei por aqui bem menos frequentemente, e nos blogs de vocês, menos ainda. Enquanto isso, vocês leiam a entrevista deliciosa que as Meninas do Cintaliga fizeram via msn comigo.

Se alguém tiver algum interesse em conversar comigo, saber notícias, essas coisas, o e-mail é blog[ponto]menin[arroba]yahoo[ponto]com[ponto]br.

P.S.: Vamos ver até onde vai minha autodisciplina. 😀 Espero conseguir postar ao menos uma vez por semana…

domingo, 20 / maio / 2007 at 11:58 pm 11 comentários

Fashion

Minha nossa, alguém por favor ajeite a estola desse homem!

papatorto.jpg

Ai, que aflição…

sexta-feira, 11 / maio / 2007 at 3:16 pm 13 comentários

[Monocromatismo]

Todo dia, ela acordava com o céu ainda escuro, tomava café preto e saía de casa. Esperava o ônibus numa parada acinzentada, subia no veículo cor-de-lata, pagava com dinheiro sujo e opaco e via o cobrador dar um sorriso amarelo.Entrava no prédio que tinha as paredes descascadas, sentava entre quatro divisórias cor de gelo e digitava o dia inteiro em um teclado bege.
Mantinha ao lado do computador um vasinho cheio de limo, com algumas plantinhas que, pela ausência de sol, não conseguiam ser verdes.
Almoçava um sanduíche gelado de pão com queijo, escovava os dentes com creme dental branco.

Às duas, três e trinta e quatro, quatro e vinte e sete e às cinco da tarde, bebia água em copos descartáveis.

Voltava pra casa às seis da tarde, o sol já estava escondido, deixando apenas aquela sujeirinha amarela na borda do céu.

Já em casa, trocava o jornal do fundo da gaiola dos passarinhos, dava uma olhada meio sonolenta na novela e ia escutar rádio.

Não se sabe bem o que aconteceu, mas naquela noite a estação de rádio que tocava o melhor da música instrumental chiava, chiava…E nada de conseguir uma sintonia. Ela acabou por desistir daquela estação, e procurou uma que sintonizasse direito.

Encontrou. Milton Nascimento inundou a casinha pardacenta: “Porque se chamava moço, também se chamava estrada…”, e ela pensou em tirar férias, pegar uma estrada bem longa, o vento nos cabelos…

Em seguida, Flávio Venturini continuou: “Cai o dia e é assim, cai a noite e é assim: essa lua sobre mim, essa fruta sob o meu paladar…” Ela pegou um lápis de cor verde-mar e começou a riscar as paredes de casa. Nenhum decorador aprovaria, mas ao menos estava colorido.

Quando o 14 Bis começou a pedir “Canta que te quero bem, brilha que te quero luz, andaluz…”, ela soltou os passarinhos da gaiola e fez surgir um arco-íris na ponta de cada dedo.

[este texto já havia sido distribuído por e-mail, para uma platéia seleta e especial, no dia 02.05.2006]

quinta-feira, 10 / maio / 2007 at 12:16 am 9 comentários

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Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir. Gibran Khalil Gibran