Archive for setembro, 2007

Debaixo dos caracóis

Meu cabelo é meu zen, meu bem, meu mal. Meu cabelo é volumoso, cacheado, rebelde, elétrico, difícil. E eu nasci nos anos oitenta, né. Ainda não tinham inventado o o leave-in, nem o babyliss. Minha mãe teve muito trabalho com ele. Lembro que eu me olhava no espelho e me achava bem parecida com a Maria Bethânia. Eu devia ter orgulho, né? Mas não. Eu chorava de vergonha do meu cabelo, e da dor dos puxões e escovadas. Minha mãe não era torturadora não, meu cabelo é que era impossível.

A Irmã do Caetano

Meus queridos e cruéis coleguinhas da escola me chamavam de Medusa. Quanta meiguice. Todo dia eu brigava com a mamãe, implorando pra que ela prendesse meu cabelo, fizesse tranças, rabo-de-cavalo, qualquer coisa pra escondê-lo. E ela dizendo que prender o cabelo todo dia fazia mal, quebrava, mofava o cabelo [MOFAVA!]. Em suma: nos dias em que eu ganhava, eu conseguia estudar sem cabelo na cara. Nos dias em que ela ganhava…bem, eram dias ruins.

E eu, a gordinha nerd que gostava de bossa nova e Monteiro Lobato, tinha cabelo ruim e um gênio furioso. Tava feita, né? As meninas me achavam ridícula, e os meninos, bem… Ficavam longe.

Tudo começou a mudar quando eu fiz doze anos e vi uma reportagem na TV que abriu meus olhos. Não lembro mais em qual canal foi; lembro que dizia que o cabelo cacheado deve ser penteado ainda molhado.

Minha vida mudou. Do visual Maria Bethânia, meu cabelo passou a exibir seu lado Ana Paula Arósio [em dia de furacão].

Demorei a convencer minha mãe que era normal ir para a escola com o cabelo pingando e molhando as costas. Ela diz que é “coisa de caboquinha” andar com uma roda escura nas costas da blusa. [O máximo do cafona pra minha mãe é dizer que tal e tal coisa é caboquice ou coisa de caboquinha. ] Eu, que entendo que minha mãe é da época do secador e dos bigudins, da touca de meia e do Oleocap, a perdôo por isso. Só pra espicaçá-la, digo que andar com o cabelo molhado é sinal de higiene. Ela vai à loucura, mas os bons resultados a convenceram.

Preciso lavar a cabeça todo dia, gastar muito creme de pentear(veja na foto abaixo), ter uma grande coleção de prendedores de cabelo, e suportar a inveja que sinto da minha mãe, que tem uma escova na bolsa e volta e meia escova as melenas em público. Enquanto eu, pobre de mim, não posso sequer enfiar os dedos entre os fios, sob pena de despertar minha Maria Bethânia interior.

Mas eu gosto dos meus cachinhos. E, neste mundo onde as mulheres precisam ser tão maternais quanto a Mãe Coragem, tão cultas quanto Dona Benta, tão bem-sucedidas profissionalmente quanto a Oprah, além de serem Deusas do Sexo e terem uma casa-mostruário de design, e a chapinha acaba por ser o grande instrumento que torna as mulheres musas perfeitas, sem um fio sequer fora do lugar, o meu cabelo cacheado me dá uma agradável sensação de ser humana, falível, real.

Uma mulher ao alcance da mão.

domingo, 30 / setembro / 2007 at 4:50 pm 27 comentários

Atochando (ui!) o rótulo

Falando mal das outras, sem a menor culpa,

no Morango com Gengibre.

domingo, 30 / setembro / 2007 at 2:28 pm 2 comentários

O Centro de apoio aos Autistas e um sofá ressuscitado.

Ives carregando Cláudia Lyra

Aqui em casa tem um sofá delicioso. De quatro lugares, macio, companheiro de nove anos. Já enfrentou uma mudança debaixo de chuva, já sentiu o peso de três namorados meus. Já recebeu a Mamy (na foto, sendo jogada pra cima pelo Ives), e a Allinne-médica-de-passarinhos-morando-em-Milão.

Nele eu me jogo pra ver televisão, com as pernas pro ar. Nele eu sento pra conversar com visitas. Nele eu arremesso minha bolsa assim que chego encalorada da rua. Nele eu jantei muitas vezes, quase sempre tarde. Chegava da faculdade dez e meia da noite, louca de fome, e jantava a sobra do almoço, vendo televisão. Nem um pouco saudável, eu sei. Esse sofá já recebeu muitos respingos de suco, café, água, e Deus sabe mais o quê…

Nesse sofá minha mãe senta, eu sento no chão, no meio das pernas dela, e ela penteia o meu cabelo, cacheado e difícil. Cabelo tão parecido com o do meu pai, tão diferente do dela, liso, pesado, brilhante. Quase todo dia, ela penteia o meu cabelo – e quando eu viajo, é uma das coisas que mais sinto saudade, essa ligação entre duas mulheres que cuidam uma da outra.Nele eu deito todo sábado, depois do almoço, pra cochilar. Meu cabelo molhado deixou muitas manchas irregulares, apesar dos protestos da minha mãe. Um atraso de dez minutos pra colocar o absorvente deixou mais uma marquinha irregular. Um dia de profunda tristeza fez o sofá receber tapas, socos, dentadas e lágrimas, que caíam deixando marquinhas redondas.

E esse sofá amigo conviveu com minha família durante nove anos, apenas acumulando nosso cheiro e nossa gordura, pois o coitado NUNCA havia sido lavado. Mamãe deu um basta nisso. E chamou uma equipe de lavagem a seco – a L&A.

***

A L&A – do nome dos donos, Letícia e Augusto, casadíssimos – lava coisas. Lavam carros, tapetes, carpetes, cortinas. Lavam persiana, colchão, poltrona e estofado de lancha. Lavam bichinhos de pelúcia. Atendem na sua casa, inclusive em domingos e feriados. Fazem lavagem a vácuo, usando o mínimo de água e um super-produto, que, de acordo com a Letícia, é “antibacteriano, antimofo, antitraça, anti-ácaro, limpa profundamente, e perfuma”.

E, o melhor de tudo: a L&A é mais que uma empresa de limpeza a seco. Esse serviço de lavagem em domicílio não tem fins lucrativos.

Letícia coordena o Centro de apoio aos Autistas N. Sª do Carmo. O lucro das lavagens é usado no custeio das atividades do Centro. “Como o autismo é uma deficiência pouco divulgada,é difícil conseguir doações. Então, resolvemos trabalhar e gerar dinheiro. O tratamento do autismo – se é que se pode falar em tratamento – consiste fundamentalmente em fisioterapia e terapia ocupacional. ”

Augusto, um negro lindo, paraense e vascaíno, imenso, metro e noventa de altura, vem acompanhado de um ajudante e de um andróide cinematográfico. (A máquina de lavagem a vácuo é sósia do R2-D2, gente. Eu estive a um passo de pedir um autógrafo).

Mas nem pense em contratar os serviços só pra receber a visita do Augusto, pois a Letícia é gente finíssima – e é ela quem dirige o carro. E, além do mais, ele só fala dela, enquanto liga o R2-d2 e faz aparecer a cor original do sofá. Eu não lembrava mais: o sofá é da cor do Teatro Amazonas, rosa imperial.

Augusto e seu ajudante têm trabalho. São nove anos sem lavagem. A esfregação é intensa, cansativa…e milagrosa. Fiz questão de bater fotos do sofá com a lavagem ainda incompleta, pra se perceber o antes(HORRÍVEL) e depois (surpreendente). Foi um genocídio de ácaros, minha gente.

Nas manchas piores, escovinha. Augusto comenta: “Essa manchinha escura aqui, deve ser sangue, não tá saindo…” E eu desconverso: “Pois é, esses carapanãs com a barriguinha cheia…voando por aí…”

Duas horas de muito esfrega-esfrega, o sofá ainda úmido, Letícia sobe. Vem me contar sobre o “Labib’s dia especial”, que vai realizar em prol do Centro de Apoio aos Autistas. Comida árabe boa de VERDADE (ao contrário de certas franquias famosas que servem esfihas frias e mal temperadas), dança do ventre, teatro de Fantoches. Fiquei de chamar meu grupo de teatro pra apresentar uma peça também. E de recomendar que todos os meus conhecidos lavem seus sofás, cortinas, bancos de carro.

Fiquei tão apaixonada ao ver o empreendedorismo de uma entidade assistencial que NÃO ESPERA POR DOAÇõES, que se eu pudesse, tinha lavado até o cabelo com a ajuda do R2-D2.

Ela fala sem parar, com embasamento científico. É feriado no Amazonas, 5 de setembro, um calor perfeito pra secar sofás recém-lavados. O Augusto é irmão de um portador da Sindrome de Down, que está em tratamento quimioterápico por causa de um câncer no pulmão. A Letícia está com enxaqueca, mas veio me contar tudo sobre seu trabalho- ela é mãe de um rapaz autista. De acordo com ela, se aparece uma mulher feia, ele cospe em cima. Ela brinca dizendo que se eu fosse lá, ele ia ficar abraçado comigo, porque de mulher bonita ele gosta. Prefiro não arriscar. Deixa o Júnior sem emitir opinião.

A Letícia e o Augusto botam um olho comprido no meu sofá rosa-imperial. “Era de um desses que o Centro tava precisando, cê não queria doar ele não?”Ah, Letícia, torce pra acontecer uma coisa bem boa na minha vida que eu faço essa doação. “Já estou torcendo.”

Eles vão embora, e ainda não sabem, mas além de lavarem meu sofá, lavaram meu coração das preocupações fúteis e superficiais.

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Se você mora em Manaus e precisa de lavagem a seco de sofás, bichinhos de pelúcia, bancos de carro ou lancha, poltronas, cortinas, persianas, tapetes, eu acho bom você ligar para (92) 3654-6037, 9175-8789, 9128-2484. Eles atendem em casa, inclusive no feriado e domingo, deixam tudo arrumadíssimo e o preço, queridos, o preço é mais que justo, é BA-RA-TO. Não vou divulgar valores aqui, pois o meu sofá é meio diferente, mas peça um orçamento – e pague em dobro, que vai continuar barato, palavra.

Se você NÃO mora em Manaus, ainda assim pode ligar e perguntar se o Centro de Apoio aos Autistas Nossa Senhora do Carmo precisa de alguma coisa, dinheiro, serviços, apoio, um patrocínio vitalício, livros sobre autismo.

Se você é blogueiro, pode colocar um LINK, trackback, pingback, etck, pra esse post no seu blog, com a tarjeta “Lavagem a seco em Manaus”, ou coisa do tipo. Assim, o post sobe no conceito de Deus, e quem procurar por esse serviço vai achar mais depressa.

E, se você gosta de se divertir, pode dar uma passadinha no Labib’s, nos dias 06 E 08 DE DEZEMBRO, pra comer a melhor esfiha, esfirra, sfiha ou sfirra de Manaus, comprar uma camisa charmosa, assistir uma peça de teatro onde eu interpreto, ver dança do ventre e fazer esse nosso estranho mundo, onde os autistas não gostam muito de permanecer, ser um lugar mais agradável.

LInks:

Meu álbum da lavagem no Flickr – A Lavagem do sofá

sexta-feira, 14 / setembro / 2007 at 1:32 am 25 comentários

Voltando devagarinho

Certo, vocês pediram que eu voltasse a escrever [e eu fiquei tão feliz de ver que tem gente que me lê há ANOS e nunca tinha comentado… assim, “ter gente que me lê” atiça minha vaidade, e eu, que tenho uma não-explicada  porém assumida vontade de falar da minha vida pessoal, fico contente em ver que ela desperta interesse em alguém. Vaidade das vaidades, blog é vaidade]. A Luciana disse no blog da Cláudia que vai falar mal de mim enquanto eu não voltar a postar, então eu vou voltar.

[Ah, escrever é relaxante, é bom, é terapêutico, é doce. Voltei. Bloguemia, aqui me tens de regresso.]

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Começo voltando no Morango com Gengibre. Falando sobre aquilo que apenas se pensa, em segredo.

Fantasia grupal.

No Morango com Gengibre.

[Delira, Google.]

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Amanhã, post novo por aqui.

quinta-feira, 13 / setembro / 2007 at 12:17 am 6 comentários


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Aspas da Semana

Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir. Gibran Khalil Gibran