Archive for junho, 2007

Coisas de Manauara MESMO

Eu não sei explicar como foi. Sei que aqui em Manaus, cachorro-quente se chama Kikão. Não tem nada a ver com o Kiko, amigo do Chaves.

Meu pai roraimense tinha uma explicação mítica. Dizia que, um dia, alguém comprou um cachorro-quente muito grande, que não conseguia nem morder. Esta pessoa teria exclamado: Nossa, QUE CÃO! E aí, ficou sendo kikão. Substantivo.

Eu sorrio quando vejo algumas tabelas de preço.

“Kikão – R$1,00

Kikinho – R$ 0,70″

Minha mãe paraense tem outra explicação, mais taxonômica. Cachorro-quente é pão com picadinho. [Blé, odeio picadinho.] Hot-dog é pão com salsicha. E kikão é pão com salsicha e verdura.

Ahn, e no Amazonas, “verdura” não é pepino, alface, cenoura. Verdura pode ser tempero [cheiro-verde, coentro, cebolinha, cebola, pimentão] ou…bem…o que vem dentro do kikão.

E o que é que vem no kikão? Isso aqui que aparece na foto clicaumentável, ó:

verdura

É repolho cozido, com molho de tomate, milho. Caras, isso é gostoso. Isso é muito gostoso. A gente enche de catchup e maionese, joga queijo ralado por cima. Céus. Eu passo vergonha. Escorre pelas mãos, pela cara. Nham.

Por isso que, quando eu vejo em filme americano os vendedores de hot-dog colocando APENAS uma mísera linha de mostarda, eu fico muito feliz de ter nascido aqui. Em Manaus tem kikão com verdura.

E, como eu já disse antes, eu fui no Festival da Bola da Suframa.  E lá, eu tive mais uma vez a prova que eu posso ter fé na humanidade, que ela nunca vai me decepcionar. Lá, inventaram de vender um cachorro-quente com carne de sol, calabresa, filé… E lá, eu ganhei o dia pois tive a chance de bater ESTA FOTO.

kikarne

National Geographic, me aguarde.

domingo, 10 / junho / 2007 at 2:10 am 33 comentários

O balão vai subindo, sem garoa nenhuma

Manaus foi formada por nordestinos que vieram pra cá nas duas épocas da borracha [1850 e Segunda Guerra] e no boom da Zona Franca e seus zilhões de empregos.

A esmagadora maioria dos amazonenses, se pesquisar com calma, vai encontrar raízes nordestinas na família.

Até a maior festa popular do Estado [O Festival do boi-bumbá de Parintins, dos bois Garantido e Caprichoso], tem origens no bumba-meu-boi do Maranhão. Inclusive, o Festival de Parintins é realizado no período de junho.

Isso gerou um fenômeno curioso em Manaus. Como muita gente vai pra Parintins no Festival, e o festival é na última semana de junho, as festas “juninas” daqui aconteciam em julho e agosto. Praticamente todo fim de semana, um dos bairros fazia arraial, com direito a quadrilha, milho cozido, pamonha(como no Brasil todo)…e também vatapá, churrasco, dança “árabe” e cirandas com meninas mostrando a calcinha. Ahn, e toada de boi-bumbá também.

Ah, Manaus e sua capacidade de ser única.

Há mais ou menos cinco anos atrás, eu reparei que estávamos chegando em SETEMBRO e ainda tinha ensaio do grupo de dança “árabe” que fica perto de casa. Setembro, e ainda tinha festa “junina”.

Aparentemente, o Governo descobriu essa característica das festas daqui, e resolveu arrumar a casa. Há três anos, a Arena do Memorial dos Povos da Amazônia (que vai continuar sendo sempre Bola da Suframa, não tem jeito) abriga o Festival Folclórico do Amazonas.Promovido pelo Governo do Estado, é um mês inteirinho de festa junina. O mês de JUNHO, curiosamente. 😀

Fui lá ontem. Ah, queridos, eu fui lá ontem. [Fotos clicaumentáveis.]
ceu cor de rosa

Teve sol e luz o dia inteiro, pra fazer uma noite clara e quente.

Do lado de fora da Arena, tem as barracas. As barracas juninas. Aquelas, aquelas. A da pescaria…

E as de comida, nham!

Maçã do amor

Como falei anteriormente, a herança cultural daqui é bastante nordestina. Então, não pode faltar vatapá. [Nota curiosa: em Manaus, é muito comum ver vendedores de churrasquinho nas esquinas. Os melhores oferecem a opção de prato completo. Um “prato completo” normalmente inclui um espetinho, arroz, farinha/farofa e uma dose de vatapá.] Aliás, os vendedores de churrasco lá no festival da Bola da Suframa criaram uma solução que eu achei maravilhosa: fazer churrasco na CHAPA, ao invés de na brasa. É por isso que eu amo o povo e a pova. Gente rica não tem esse jogo de cintura.

Prato Completo

Churrasco na chapa

Dentro da arena, a atração principal são as apresentações de grupos folclóricos. E é aí que eu me acabo. Consegui assistir à Ciranda Sedução, do bairro de São Francisco. Linda a ciranda.

[Nota curiosa 2: a ciranda daqui do Amazonas não tem muito a ver com aquela de ciranda-cirandinha. É uma dança tradicional, coreografada, e cheia de particularidades. Por exemplo, as meninas escondem as pernas com polainas, mas mostram a calcinha. Merecia um post só pra explicar pra vocês o que é ciranda…]

ciranda

Eu cantei, dancei, bati palma. Adoro as músicas de ciranda.

“Ciranda, ô ciranda, vamos todos cirandar,

ciranda, ô ciranda, vamos todos cirandar!

Vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar,

vamos dar a volta e meia, cada qual pega o seu par!”

[Nota: NÃO tentem cantar como aquela música de roda. Não é parecida.]

Vamos todos Cirandar

Depois da Ciranda Sedução, houve uma pausa para limpeza da arena. Vi os laranjinhas dando um show…

laranjinhas

E se você não quer ir até as barracas de comida, elas podem vir até você![Eu enlouqueço com esse churrasqueijo!]

Depois ainda teve uma quadrilha cômica [com casamento engraçado]. Mas nenhuma foto ficou boa. E eu dei uma passadinha na barraca das tradições, que é da própria Secretaria Estadual de Cultura. [Sim, a mesma que organiza o Festival de Ópera. Ah, Manaus, Manaus.] Lä tinha cartomante, simpatia da cera da vela pingando, e a explicação sobre os QUATRO santos juninos. Oh, sim, são quatro! Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal.
Fiquei com pena do São Marçal. A hagiografia dele parece piada. “Dizem que ele era o menino que segurava o cesto com cinco pães e dois peixes. Dizem que carregou a bacia com a água que Jesus usou para lavar os pés dos apóstolos.” Pô, ele era um figurante sem fala! Tinha concurso de parlendas também. Olha eu na foto, junto com os atores.

Barraca das tradições

O lugar estava bastante cheio, porém tranquilo.

povão

Os colegas amazonenses do Alexandre estavam presentes, garantindo a segurança de todos e fazendo cara de mau…

PM

Bolo de tapioca é chamado de bolo podre, sabe-se lá o porquê… E o pessoal pode vender bastante bolo de tapioca, em qualquer idioma… 😀 😀 😀

Bolo Pôdi

Além de ciranda e quadrilha, se apresentam também danças nacionais [Dança do Café, dança Gaúcha, dança do Cangaço] , internacionais [“árabe”/ libanesa/ egípcia/ uzbequistanesa, que no final é tudo dança do ventre mesmo, e a dança portuguesa infalível], regionais [Dança do Cacetinho,que é indígena e de luta com porretes. Apesar do nome ridículo, é minha favorita], Bois-Bumbás de Manaus [Corre-Campo, Garrote Estrelinha, Garanhão, Garantido de Manaus]. São mais de cento e vinte atrações.

Em suma: os grupos folclóricos se apresentam, os vendedores garantem uma renda, o povo se diverte, as tradições são passadas adiante…E o Governo fica bem na fita, que ninguém aqui é besta, né mesmo? Panis et Circensis, tudo numa arena só.

Centro Cultural dos Povos da Amazônia

Eu, cá entre nós, acho tudo muito legal e volto lá na semana que vem, antes que o mês acabe! Aguardem Vídeos no YouTube, e um post sobre Ciranda. Não aguardem muito ansiosamente… Mas eu volto.

domingo, 10 / junho / 2007 at 1:54 am 15 comentários


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Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir. Gibran Khalil Gibran