Entre a Baía e o Encontro das Águas

segunda-feira, 19 / fevereiro / 2007 at 10:30 pm 14 comentários

Eu conheci você no dia Dezenove de julho de 2004. Numa cidade pequena. Num bairro periférico. Numa escola estadual. Numa sala de aula suja e com as paredes descascadas. Você ganhou de mim no xadrez, e me ganhou na conversa. Mas fui eu quem ganhei no primeiro beijo-surpresa, dado no escuro, em silêncio pra não acordar os outros VINTE malucos que dormiam na mesma sala de aula. Você tinha 19 anos e eu dezoito. Você me falava sobre sua cidade (que eu já conhecia e ODIAVA, profunda e visceralmente), e eu te falava sobre a minha (na qual você nunca tinha parado pra pensar). Eu te falava sobre o meu amor pelo teatro, e você sobre a saudade de representar. A gente se despediu. Quando o seu ônibus saiu de Cuiabá em direção a Belém, o meu coração começou a derreter. Eu andava pela sala de aula suja e de paredes descascadas, e me sentia tão vazia quanto ela. E me perguntei várias vezes: por quê?

Eu voltei pra casa e descobri que tinha perdido seu e-mail. Chutei o pau da barraca e liguei pro seu celular, que eu tinha agendado. Quem atendeu foi o seu irmão (ai, que vergonha) e eu não soube o que dizer. “Ah, fala pra ele que a Eva de Manaus ligou…” Tive certeza que NUNCA MAIS ia falar com você. No dia seguinte, eu estava deitada no sofá, e o telefone tocou. Eu atendi meio distraída. E você disse seu nome. Eu repeti, atônita. E caí no chão da sala. “O menino de Belém? De Cuiabá? É você? É VOCÊ?” Nem lembro do que nos falamos. Lembro da sua voz nervosa do outro lado da linha: “Gatinha, eu estou num orelhão e o meu cartão está sendo COMIDO! ” Mas dessa vez, anotei seu e-mail.
Os e-mails que trocamos quando descobrimos (assumimos?) estar apaixonados, e todos os medos que vieram. Interurbanos, MUITOS interurbanos. A sensação de estar pisando em nuvens, e a paciência dos meus amigos diante do meu único assunto: você.

Eu começando a trabalhar. O meu primeiro salário sendo torrado em uma viagem pra Belém. Eu te ligando pra dizer que dentro de trinta e quatro horas eu desembarcaria em Belém. Os seus gritos do outro lado da linha. “Vamos ver se isso é o que parece.” E vimos que, realmente, era o que parecia. Era mais do que parecia. A praça Batista Campos deserta, na tarde do dia 1º de janeiro de 2005, e nós ajoelhados, dizendo que queríamos passar uma vida ao lado um do outro. E a decisão que tomamos que, por não sabermos o dia em que começamos a namorar, nossa data de início seria o primeiro dia em Cuiabá. Nos despedimos.

E eu em Manaus, você em Belém. Um sofrimento intenso, uma alegria absurda. A sensação de estar andando nas nuvens, e interurbanos, MUITOS interurbanos.

Brasília, abril. Nós dois, muitos amigos, uma cidade bonita e com endereços que parecem sopas de letrinhas. E eu, orgulhosa, contando pras meninas que você ia pra Manaus, só por minha causa, em Julho.

Nós dois completando um ano, você em Fortaleza, eu aflita. Você saindo de Fortaleza, passando apenas 23 horas com sua família e vindo pra Manaus. Seu avião não conseguindo pousar em Manaus. Você telefonando do aeroporto de Porto Velho. Você chegando, na luz da manhã de Manaus. Eu correndo no aeroporto e me pendurando no seu pescoço. Quinze dias em Manaus, lendo livros a duas vozes. Eu indo trabalhar e você fazendo contas na mesa da minha cozinha. Eu te mostrando a cúpula do Teatro Amazonas, o meu paraíso particular, o meu lugar favorito do MUNDO INTEIRO. Você compreendendo a minha vida e minha rotina. Nós dois escovando os dentes, você falando de uma futura “nossa vida quando ficarmos juntos” e eu assustada com tanta certeza, corrigindo: “se ficarmos juntos”. Nós nos despedindo, e eu assombrada com o avião, essa máquina que diminui distâncias, mas separa pessoas em segundos.

Nós dois vasculhando promoções de passagens aéreas. Você de volta em Manaus, em outubro. Alegrias, dificuldades. Despedida difícil, cada vez mais dolorida, dado que a cada reencontro, nos amávamos mais.

Dezembro, e eu em Belém novamente, cheia de compromissos com minha exigente família. Eu na sua casa, vendo a bússola apontando na direção de Manaus. E vendo igualmente, na mesma direção que a bússola apontava, todos os presentes que te dei. Todos os bilhetes de viagem pra Manaus. E o ingresso do cinema. E eu tremendo da cabeça aos pés: “Meu Deus, você ergueu um altar pra mim na sua casa?” E eu tocando seus livros, seus cadernos de estudo, sua cama, sua parede, seus porta-retratos, tentando deixar um pedaço de mim naqueles objetos. Eu trêmula e sua mãe me oferecendo água com açúcar, dizendo pela décima vez que devíamos deixar essa paixão toda pra mais tarde, pois “quando for pra vocês ficarem juntos, vocês vão ficar, menina!”

Mais meses passando. Em Janeiro, começamos a utilizar o MSN pra conversar. Eu desenvolvi umas superstições tolas, que mantenho com carinho. Não fecho a janela da nossa conversa no msn, e sempre a salvo em documento do Word.

Você novamente em Manaus, quatro meses depois. Novamente a felicidade completa;nós e nossos amigos dançando salsa do lado de fora da casa noturna, pois ninguém tinha dinheiro pra entrar. Nós no Largo São Sebastião, vendo a queima de fogos do Festival de Ópera, e os passarinhos voando desesperados por causa do barulho, batendo em nossos rostos.

Novamente a separação, novamente interurbanos, MUITOS INTERURBANOS; acho que foi nessa época que você começou a me escrever e-mails diários.

Promoção da Gol: Cinquenta reais! Era minha vez de ir pra Belém. E eu fui, passar um final de semana de maio, cheio de amor e paz. Quando fui na Universidade, uma colega sua perguntou: Então, segunda você volta à vida normal? E eu disse: Não. Volto à vida anormal, que é ficar longe de quem se ama.

Dois meses depois,em junho, você novamente em Manaus. Viva a Gol e a promoção de um real! Você mostrando com orgulho o ticket de embarque com o preço: R$ 1,00 (Mais dezenove reais de taxa, claro. 😀 ) .

Mais três meses de vida anormal. Novamente, catando promoção de passagens aéreas, você veio pra cá, passar um final de semana. Quatro dias é pouco tempo pra nós dois… Te fiz assistir uma peça num bairro bastante afastado, e me lembro perfeitamente do seu comentário: “Se eu ficasse o mesmo tempo que fiquei dentro desse ônibus lá em Belém, eu chegava em Santa Bárbara! Sabe onde é Santa Bárbara? É a terceira cidade da Zona Metropolitana de Belém! Depois de Ananindeua, depois de Marituba!” E eu comentei, divertida: “Quando eu era criança, há doze anos atrás, Santa Etelvina era o último bairro de Manaus. Agora já tem uns seis ou sete depois…” E ele: “Eu sabia que Manaus era grande, mas não sabia que era TANTO!” E completou: “Eu seria feliz morando em Manaus.”

Após esse encontro, seguiu-se um longo e negro período de separação. Cinco meses de crise, dúvida, dor, em que brigamos até pelo MSN, em que chorei tanto que achei que fosse secar por dentro. Em vários momentos, eu vi o nosso relacionamento terminando.

E eis que veio a paz. E houve o perdão.

E mais uma vez, eu fui a Belém. Você aprovado no mestrado, defendendo o TCC. Eu fazendo prova pro mestrado, quase terminando a faculdade. Você completando 22, eu ainda com 21, e nós dois comendo uma pizza fria no café da manhã. E, andando pelas calçadas largas ensombradas pelas mangueiras bicentenárias, eu percebi que sou capaz de vencer um ódio antigo. Eu também seria feliz morando em Belém – com você.

Seria não – serei. E, na volta pra Manaus, decidi que minha história com você deixou de ser “se ficarmos juntos” e passou a ser “quando ficarmos juntos”. Ainda sem ter certeza de ONDE ficaremos juntos. Mas sabendo que vai acontecer. Entre idas e vindas, passagens áreas e prestações de cartão de crédito, tucumã e bacuri, maniçoba e pirarucu de casaca, entre o Negro e o Guamá, conectados pelo Rio Amazonas e pela Internet.

E hoje, que essa história faz dois anos e sete meses, eu resolvi sentar e registrar tudo. Parabéns pra nós dois, que continuamos querendo ser honestos, mesmo que seguir o amor que sentimos seja irracional, doloroso, pouco pragmático. Pois só nós dois sabemos do que sentimos quando estamos juntos. Eu caminho nas nuvens, todo dia, quando penso que você existe e continua gostando de mim.

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Entry filed under: amar - verbo intransitivo.

Tour du bloguet [lê-se tur di bloguê] Meme: Atitudes Ecoconscientes

14 Comentários Add your own

  • 1. poetamatematico  |  terça-feira, 20 / fevereiro / 2007 às 8:18 am

    Como eu sei que vc vai ler, espero que goste do presente. Foi de coração…

    Eu A-DO-REI. Engraçado é que, quando escrevi esse texto enorme, tive certeza que você sera uma das poucas pessoas que leria tudo.

    Beijos

    Responder
  • 2. dengodemainha  |  terça-feira, 20 / fevereiro / 2007 às 8:50 am

    Ai que lindo, Eva! :~~~
    Parabéns por esses anos e meses. Que venham muitos outros!

    Sim, que venham!

    Eliane deve voltar por esses dias. Vou ver se consigo ir aí em maio.
    Se Vc puder me ajudar, estou embananadíssima com o blog. Não sei onde é q eu tava com a cabeça! Como se o tempo já não fosse curto demais..

    Vai pedindo o que tu quer saber que eu vou tentando ajudar…

    Cheiro pra Vcs dois!

    Outro!

    Responder
  • 3. Clarice  |  terça-feira, 20 / fevereiro / 2007 às 6:31 pm

    Gente, que coisa linda =~~
    Espero eu chegar nos 2 anos e 7 meses.
    E muitos muitos vivas à Gol. Que em 2007 as promoções continuem para nossa alegria heh

    Eu não espero ir quebrando recordes de permanência ao lado dele não, Clarice. Tenho vontade de ficar junto “só um ou dois para sempres”, como disse Rita Apoena…

    E que a Gol ganhe muito, muito dinheiro, que se recupere, que pague todas as indenizações das famílias dos passageiros do vôo que caiu, e que depois faça promoções e promoções e promoções e promoções e pra mocinhas também.

    Responder
  • 4. Coyote Físico  |  terça-feira, 20 / fevereiro / 2007 às 6:51 pm

    Espero que a gol recupere os bons ares de 2006 e volte com as promoções em 2007.
    No nosso aniversário de 2 anos e 7 meses, já que falamos em mudanças, eu passei corrigindo provas de física básica 1 de alunos da engenharia e vi que não colocaria minha casa na mão de nenhum deles.
    Quando eu te falei da cidade que corresponderia em distância a Santa Etelvina, eu falei de Benevides, e não Santa Bárbara.

    Pô, eu cheguei a ESCREVER benevides. Mas aí, a memória me traiu, e eu fiquei pensando alto: Benevides? Santa Bárbara? Benevides? Santa Bárbara? E terminei errando…

    Mas não é isso o importante. O importante é que chegamos até aqui, passando por muita coisa ruim e apoiados por tantas coisas boas que nos aconteceram. Chegamos até aqui, com a esperança de irmos mais longe. A vida daqui pra frente vai ter mudanças mais bruscas, e estaremos juntos.
    Que as dificuldades nos ensinem como evitá-las. Que as alegrias nos mostrem como repetí-las e melhorá-las. E que esse amor, que aconteceu de uma forma tão aleatória como foi o nosso encontro, cresça, amadureça e, principalmente, continue.

    Eu lembro daquele trecho do “Insustentável Leveza”. Que fala das coincidências que se acumulam como pássaros nos ombros de São Francisco de Assis. E que o amor é alimentado pelas coincidências e pelas metáforas. Só pensava em nós dois enquanto lia…

    Beijo, eu te amo. (e adorei ler esse post!)

    Até que enfim, uma coisa desse blog novo que você gostou de ler! \o/ E eu te amo também, rapaz.

    Responder
  • 5. lulu  |  quarta-feira, 21 / fevereiro / 2007 às 6:30 am

    que delícia de texto, lindo mesmo.

    Quê. É mais uma história de amor. Só que é a minha história.

    Responder
  • 6. Juliana  |  quarta-feira, 21 / fevereiro / 2007 às 9:58 am

    Ah, estou sem palavras… que história lindaa!!!
    e eu consigo escrever a minha assim tb.. sem essa distância tão dolorosa e com 2 meses a mais que a sua…

    E repare que eu resumia as fases de distância em uma ou duas frases….

    felicidades! muitas!

    beijo

    Responder
  • 7. Marília  |  quarta-feira, 21 / fevereiro / 2007 às 12:45 pm

    Que lindo post! Estou torcendo pra essa história ter logo um final feliz…

    hohohoho, eu torço pra não ter final, hohohoho.

    Responder
  • 8.  |  quarta-feira, 21 / fevereiro / 2007 às 3:53 pm

    E eu só desejo a vocês muitos mais meses, muita força, compreensão e viagens… mas viagens só até quando for necessário.

    E haverão as viagens feitas em dupla, em equipe…

    Sabes que sempre estive na torcida por vocês.

    Mais que torcida, quérida, você está nos bastidores, no suporte técnico, no apoio moral, na frente, dançando salsa do lado de fora. Graças a Deus!

    Responder
  • 9. Leticia  |  quinta-feira, 22 / fevereiro / 2007 às 10:14 pm

    Que coisa mais linda, Eva! Parabéns pela história e pela persistência.

    Obrigada, Let. É uma bonita história mesmo.

    Responder
  • 10. Darlana  |  sábado, 24 / fevereiro / 2007 às 6:04 pm

    Querida menina… Ai que lindo…Vc sabe que eu torço muito por vcs… Adoro estórias felizes….e reais !!!!

    E que você viu acontecendo ao vivo, hein? Hehehehe. “O amor é uma flor roxa, que nasce no coração dos trouxas e dá uma dor danada na coxa!”

    Responder
  • 11. Vivien  |  domingo, 25 / fevereiro / 2007 às 7:30 pm

    mais uma na torcida.;0)

    Esse amor é cheio de aliados!

    Responder
  • 12. LuciDo  |  quarta-feira, 28 / fevereiro / 2007 às 6:35 pm

    😮
    perfeito
    😀
    e acredita que até me vi no msn te vendo on line mas vc só respondendo que não podia falar porque estava teclando com ele
    hehehehh

    Foi um texto assim que li no seu blog antigo que me fez querer ter um…
    meu Deus vc foi minha progenitora bloguistica…

    o que quero dizer é que o texto é lindo e tomei a liberdade de salva-lo pra mostrar pra minha dignissima.
    bjos.

    Responder
  • 13. Bel  |  sexta-feira, 2 / março / 2007 às 2:53 pm

    Aff, que cheguei a ficar sem fôlego!!!
    Deus abençoe vocês e que essa história realmente nunca tenha fim!!! (E eu li tudinho, viu???)

    Hihihi, que nunca tenha fim e que seja sempre boa.

    Responder
  • 14. Carla Soares Lima  |  terça-feira, 12 / janeiro / 2010 às 7:53 am

    http://www.chamedicinal.com.br

    Responder

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