Archive for fevereiro, 2007

Apenas uma observaçãozinha irritada

ODEIO, ODEIO, ODEIO, esse péssimo hábito que alguns blogueiros têm de só comentar no blog dos outros quando tem post novo no SEU blog!

Ou seja, a pessoa só comenta quando tá a fim de ser comentada! Ora, vá lamber sabão, vá catar coquinho, vá pentar macaco raivoso!! 

P.S.: Não, não é ninguém que comenta aqui. Os meus leitores são os melhores.

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quinta-feira, 22 / fevereiro / 2007 at 5:37 pm 62 comentários

Como dois quadradões

Eu adoro esse texto da Luciana. Eu também faço carinho no monitor, devagarinho, tentando estabelecer uma conexão que não necessite de fios ou modems, que atravesse mais de 1200 quilômetros.
Eu e a Luciana somos as damas formosas da Internet à moda antiga. Gostamos de gentilezas em carne, osso e bytes. Somos adeptas do violão guardado, aquela flor e outra mumunhas mais.

Eu, você, nós todos, já temos um passado, meu amor.

quinta-feira, 22 / fevereiro / 2007 at 10:44 am 5 comentários

E viva Preta Gil!

Quando a Preta Gil aparecia na TV, eu vibrava de emoção.

Me senti vingada, me senti realizada. Se ela gosta de sambar, se gosta de Carnaval, VAI, PRETA GIL! VAI!

Eu fui junto com ela. E adorei vê-la chorando. Compreendi COMPLETAMENTE. Cara, ela tava desfilando no Carnaval. E não era de camiseta. Não era empurrando carro. Não era da Unidos do Sobe-e-desce de Pirapororoquinha. Ela tava na MANGUEEEEEEEEEEIRA! Na frente da bateria da MANGUEEEEEEEEEEIRA! De plumas, paetês e tudo o mais.

Vai, Preta Gil! Me leva junto contigo nas tuas medidas generosas! Conduz o ritmo e me representa, leva os teus quilos e também os meus, juntos nesse Carnaval. Eu nem gosto de Carnaval, Preta, mas eu sei o que ele é, eu sei das mulheres nuas e das academias de ginástica, eu sei de tudo, Preta. Vai, que eu tô do teu lado, ouvindo o tamborim e o bumbo.

Vai Preta! E deixa pra lá os bobos. Eu sei bem o valor de um polenguinho de chocolate na hora certa. Preta, eu nem gosto de Carnaval, mas eu quero que você sambe TODAS AS VEZES QUE QUISER, e que nunca alguém te faça sentir vergonha de ser do jeito que é. Isso de vergonha, deixa pra quem é bobo, que nós não somos.

Vai, Preta. Os tambores da Mangueira ressoam em nós, mulheres normais e felizes. Somos lindas. Você e eu.

quarta-feira, 21 / fevereiro / 2007 at 6:13 pm 17 comentários

Meme: Atitudes Ecoconscientes

Passando no blog da Lúcia Malla, vi que ela criou o Meme das Atitudes Ecoconscientes. Apesar de não ter sido escolhida pra fazer o meme, vou fazer assim mesmo. Porque ainda é fevereiro, e aqui em Manaus deveria estar chovendo cântaros e fazendo temperaturas mais baixas (29 graus, por aí), e tem feito dias de céu azul, sem uma nuvem, um caloooooor absurdo. E isso me faz pensar: Imagina quando chegar agosto, tradicionalmente o mês mais quente do ano?

Tudo me leva a crer que teremos outra seca violenta aqui. Então, uma maneira que encontrei de colaborar é fazer a minha parte.

“Poste as 3 atitudes ecoconscientes que você praticou/pratica/pretende praticar na sua vida (ou na sua casa, no seu trabalho, no boteco, etc.) para melhorar a situação ambiental do planeta Terra.”

Cada um escolhe o tempo verbal e o local que quer usar no seu meme, e se possível, discute um pouquinho sobre cada uma das suas 3 atitudes. Se a pessoa tiver mais atitudes para postar, não tem problema, ponha quantas quiser. 3 é um número aleatório que eu escolhi, mas não obrigatório. O mais importante é tentar pôr a mão na ecoconsciência e tirar 3 atitudes que você acha interessantes serem repassadas para outras pessoas ao redor, que outros leiam e, quem sabe, se inspirem.

Minhas respostas:

01 – Eu economizo água sempre que posso. Aquela coisa de fechar a torneira enquanto escova os dentes, não lavar a calçada usando mangueira, lavar louça usando bacia e/ou com a torneira fechada. Minha grande falha nesse ponto: adoro tomar banho demorado. Demorado, assim, MAIS DE CINQUENTA MINUTOS. E meu chuveiro é elétrico. Ai, ai… Mas tem feito tanto calor que tenho desligado o chuveiro elétrico. Isso conta pontos a meu favor?

02 – Eu desligo o monitor do computador quando vou ao banheiro, ou quando vou a outro setor no trabalho. O monitor é responsável pelo maior gasto de energia elétrica do PC. Ao desligá-lo, você ganha duas vezes: economiza eletricidade e protege seus dados de olhares abelhudos…

03 – Eu compro biojóias. E uso. E costumo comprar de fontes “seguras”, ou seja, vendedores que são ligados a alguma comunidade tradicional. Aqui em Manaus, normalmente compro meus brincos e colares de semente de Associações Indígenas, como a Associação das Mulheres Indígenas do Rio Negro(AMIRN). Além de ajudar a comunidade, incentivo o uso sustentável da Floresta. E fico na moda por precinhos camaradas, de três a dez reais!

E nunca, NUNCA, compro bijuterias com penas de papagaio ou arara!! Dá pra saber quando a pena é de papagaio: ela tem uma cor diferente no “direito” e no “avesso”. Tenho um colar com pena de papagaio, que ganhei de presente, mas não sabia identificar na época. Achei que eram penas de galinha ou pato tingidas. (Como, aliás, são a maioria das penas usadas no Festival Folclórico de Parintins.) Minhas bijuterias são de semente, casca de coco ou fio de tucum.

Tem muita coisa que faço que não é ecoconsciente: Ando MUITO de avião, que consome um combustível ABSURDO no pouso e decolagem; trabalho com ar-condicionado o dia inteiro (e em Manaus, ar-condicionado é item de série nas construções. Até casa de madeira tem espaço pra ar-condicionado!); Uso muita roupa sintética; consumo muitos produtos com embalagem; não participo de nenhum programa de reciclagem. Mas durante esse ano, vou buscar um modo de ser mais ecológica, pra ver se o mundo respira aliviado…

terça-feira, 20 / fevereiro / 2007 at 10:37 am 6 comentários

Entre a Baía e o Encontro das Águas

Eu conheci você no dia Dezenove de julho de 2004. Numa cidade pequena. Num bairro periférico. Numa escola estadual. Numa sala de aula suja e com as paredes descascadas. Você ganhou de mim no xadrez, e me ganhou na conversa. Mas fui eu quem ganhei no primeiro beijo-surpresa, dado no escuro, em silêncio pra não acordar os outros VINTE malucos que dormiam na mesma sala de aula. Você tinha 19 anos e eu dezoito. Você me falava sobre sua cidade (que eu já conhecia e ODIAVA, profunda e visceralmente), e eu te falava sobre a minha (na qual você nunca tinha parado pra pensar). Eu te falava sobre o meu amor pelo teatro, e você sobre a saudade de representar. A gente se despediu. Quando o seu ônibus saiu de Cuiabá em direção a Belém, o meu coração começou a derreter. Eu andava pela sala de aula suja e de paredes descascadas, e me sentia tão vazia quanto ela. E me perguntei várias vezes: por quê?

Eu voltei pra casa e descobri que tinha perdido seu e-mail. Chutei o pau da barraca e liguei pro seu celular, que eu tinha agendado. Quem atendeu foi o seu irmão (ai, que vergonha) e eu não soube o que dizer. “Ah, fala pra ele que a Eva de Manaus ligou…” Tive certeza que NUNCA MAIS ia falar com você. No dia seguinte, eu estava deitada no sofá, e o telefone tocou. Eu atendi meio distraída. E você disse seu nome. Eu repeti, atônita. E caí no chão da sala. “O menino de Belém? De Cuiabá? É você? É VOCÊ?” Nem lembro do que nos falamos. Lembro da sua voz nervosa do outro lado da linha: “Gatinha, eu estou num orelhão e o meu cartão está sendo COMIDO! ” Mas dessa vez, anotei seu e-mail.
Os e-mails que trocamos quando descobrimos (assumimos?) estar apaixonados, e todos os medos que vieram. Interurbanos, MUITOS interurbanos. A sensação de estar pisando em nuvens, e a paciência dos meus amigos diante do meu único assunto: você.

Eu começando a trabalhar. O meu primeiro salário sendo torrado em uma viagem pra Belém. Eu te ligando pra dizer que dentro de trinta e quatro horas eu desembarcaria em Belém. Os seus gritos do outro lado da linha. “Vamos ver se isso é o que parece.” E vimos que, realmente, era o que parecia. Era mais do que parecia. A praça Batista Campos deserta, na tarde do dia 1º de janeiro de 2005, e nós ajoelhados, dizendo que queríamos passar uma vida ao lado um do outro. E a decisão que tomamos que, por não sabermos o dia em que começamos a namorar, nossa data de início seria o primeiro dia em Cuiabá. Nos despedimos.

E eu em Manaus, você em Belém. Um sofrimento intenso, uma alegria absurda. A sensação de estar andando nas nuvens, e interurbanos, MUITOS interurbanos.

Brasília, abril. Nós dois, muitos amigos, uma cidade bonita e com endereços que parecem sopas de letrinhas. E eu, orgulhosa, contando pras meninas que você ia pra Manaus, só por minha causa, em Julho.

Nós dois completando um ano, você em Fortaleza, eu aflita. Você saindo de Fortaleza, passando apenas 23 horas com sua família e vindo pra Manaus. Seu avião não conseguindo pousar em Manaus. Você telefonando do aeroporto de Porto Velho. Você chegando, na luz da manhã de Manaus. Eu correndo no aeroporto e me pendurando no seu pescoço. Quinze dias em Manaus, lendo livros a duas vozes. Eu indo trabalhar e você fazendo contas na mesa da minha cozinha. Eu te mostrando a cúpula do Teatro Amazonas, o meu paraíso particular, o meu lugar favorito do MUNDO INTEIRO. Você compreendendo a minha vida e minha rotina. Nós dois escovando os dentes, você falando de uma futura “nossa vida quando ficarmos juntos” e eu assustada com tanta certeza, corrigindo: “se ficarmos juntos”. Nós nos despedindo, e eu assombrada com o avião, essa máquina que diminui distâncias, mas separa pessoas em segundos.

Nós dois vasculhando promoções de passagens aéreas. Você de volta em Manaus, em outubro. Alegrias, dificuldades. Despedida difícil, cada vez mais dolorida, dado que a cada reencontro, nos amávamos mais.

Dezembro, e eu em Belém novamente, cheia de compromissos com minha exigente família. Eu na sua casa, vendo a bússola apontando na direção de Manaus. E vendo igualmente, na mesma direção que a bússola apontava, todos os presentes que te dei. Todos os bilhetes de viagem pra Manaus. E o ingresso do cinema. E eu tremendo da cabeça aos pés: “Meu Deus, você ergueu um altar pra mim na sua casa?” E eu tocando seus livros, seus cadernos de estudo, sua cama, sua parede, seus porta-retratos, tentando deixar um pedaço de mim naqueles objetos. Eu trêmula e sua mãe me oferecendo água com açúcar, dizendo pela décima vez que devíamos deixar essa paixão toda pra mais tarde, pois “quando for pra vocês ficarem juntos, vocês vão ficar, menina!”

Mais meses passando. Em Janeiro, começamos a utilizar o MSN pra conversar. Eu desenvolvi umas superstições tolas, que mantenho com carinho. Não fecho a janela da nossa conversa no msn, e sempre a salvo em documento do Word.

Você novamente em Manaus, quatro meses depois. Novamente a felicidade completa;nós e nossos amigos dançando salsa do lado de fora da casa noturna, pois ninguém tinha dinheiro pra entrar. Nós no Largo São Sebastião, vendo a queima de fogos do Festival de Ópera, e os passarinhos voando desesperados por causa do barulho, batendo em nossos rostos.

Novamente a separação, novamente interurbanos, MUITOS INTERURBANOS; acho que foi nessa época que você começou a me escrever e-mails diários.

Promoção da Gol: Cinquenta reais! Era minha vez de ir pra Belém. E eu fui, passar um final de semana de maio, cheio de amor e paz. Quando fui na Universidade, uma colega sua perguntou: Então, segunda você volta à vida normal? E eu disse: Não. Volto à vida anormal, que é ficar longe de quem se ama.

Dois meses depois,em junho, você novamente em Manaus. Viva a Gol e a promoção de um real! Você mostrando com orgulho o ticket de embarque com o preço: R$ 1,00 (Mais dezenove reais de taxa, claro. 😀 ) .

Mais três meses de vida anormal. Novamente, catando promoção de passagens aéreas, você veio pra cá, passar um final de semana. Quatro dias é pouco tempo pra nós dois… Te fiz assistir uma peça num bairro bastante afastado, e me lembro perfeitamente do seu comentário: “Se eu ficasse o mesmo tempo que fiquei dentro desse ônibus lá em Belém, eu chegava em Santa Bárbara! Sabe onde é Santa Bárbara? É a terceira cidade da Zona Metropolitana de Belém! Depois de Ananindeua, depois de Marituba!” E eu comentei, divertida: “Quando eu era criança, há doze anos atrás, Santa Etelvina era o último bairro de Manaus. Agora já tem uns seis ou sete depois…” E ele: “Eu sabia que Manaus era grande, mas não sabia que era TANTO!” E completou: “Eu seria feliz morando em Manaus.”

Após esse encontro, seguiu-se um longo e negro período de separação. Cinco meses de crise, dúvida, dor, em que brigamos até pelo MSN, em que chorei tanto que achei que fosse secar por dentro. Em vários momentos, eu vi o nosso relacionamento terminando.

E eis que veio a paz. E houve o perdão.

E mais uma vez, eu fui a Belém. Você aprovado no mestrado, defendendo o TCC. Eu fazendo prova pro mestrado, quase terminando a faculdade. Você completando 22, eu ainda com 21, e nós dois comendo uma pizza fria no café da manhã. E, andando pelas calçadas largas ensombradas pelas mangueiras bicentenárias, eu percebi que sou capaz de vencer um ódio antigo. Eu também seria feliz morando em Belém – com você.

Seria não – serei. E, na volta pra Manaus, decidi que minha história com você deixou de ser “se ficarmos juntos” e passou a ser “quando ficarmos juntos”. Ainda sem ter certeza de ONDE ficaremos juntos. Mas sabendo que vai acontecer. Entre idas e vindas, passagens áreas e prestações de cartão de crédito, tucumã e bacuri, maniçoba e pirarucu de casaca, entre o Negro e o Guamá, conectados pelo Rio Amazonas e pela Internet.

E hoje, que essa história faz dois anos e sete meses, eu resolvi sentar e registrar tudo. Parabéns pra nós dois, que continuamos querendo ser honestos, mesmo que seguir o amor que sentimos seja irracional, doloroso, pouco pragmático. Pois só nós dois sabemos do que sentimos quando estamos juntos. Eu caminho nas nuvens, todo dia, quando penso que você existe e continua gostando de mim.

segunda-feira, 19 / fevereiro / 2007 at 10:30 pm 14 comentários

Tour du bloguet [lê-se tur di bloguê]

Primeiro, vocês vão aqui e ficam morrendo de vontade de passar o Carnaval em Olinda. Eu, que nem de Carnaval gosto, fiquei BABANDO de vontade de ir pra Olinda AGORA. ONTEM. Obrigada, Clarice (ou serão Clarices?)!

Aí, vocês vão aqui e aqui e aqui e aqui e… pra simplificar, vão no Baú de tranqueiras do Heredia e vão remexendo até o fundo (dando page down :D) . Comecem a arrancar os cabelos, com vontade de comer/morar/dançar/ouvir/voar/viver/morrer/amar em Buenos Aires. Eu estou francamente seduzida. Quero ir pra Buenos Aires. Quero ver a quantidade de livrarias por metro quadrado. Quero ouvir música andina. E gritar em êxtase, de madrugada, no meio de ruas lindas que eu pressinto que existem.

Depois, vocês vão conhecer um blog com fotos de aviões. Mas não é só um blog com fotos de aviões. É o blog com o MELHOR NOME QUE JÁ VI. Fiquei com inveja. Eu queria ter essas idéias.

Continuando o tour, você vai olhar Por Cima da Sacada da Carô, e descobrir o que aconteceria se os homens mestruassem. Eu gostaria de bater palmas pro texto, mas eu estava em frente a um computador!

Morram de rir com o curativo da tatuagem da Tati.

Aí, pra terminar, vocês clicam aqui e oferecem muito carinho, apoio e energia pra Vivien. Palavras suaves, pessoal.

sábado, 17 / fevereiro / 2007 at 12:39 am 9 comentários

O que poderia não ser

Em Portugal, domingo passado, dia 11, foi realizado um plebiscito nacional que decidiu que SIM, o aborto deve ser despenalizado. Em termos práticos: praticar, realizar, fomentar, oferecer condições para o aborto não é mais crime.

Essa questão é tremendamente complexa. Os dois lados estão de acordo em uma coisa: ninguém é A FAVOR do aborto. Ninguém acha legal, divertido, prático, vapt-vupt, realizar um aborto.

A discussão em Portugal ficou meio violenta, os ânimos exaltados (notei pelo You Tube: estava procurando por vídeos sobre o tema, e quase todos os comentários eram de portugueses tomando posição pelo SIM, ou pelo NÃO, quase sempre começando guerrinhas de comentários).

O tema é delicado, não pretendo ferir suscetibilidades.

Eu sou espírita. Uma das coisas que eu mais gosto no Espiritismo é que ele não proíbe nada. Não existe esse conceito de pecado – ó, você errou e vai se ferrar feio por isso. A doutrina espírita possui um conceito de erro e resgate. Tipo, você causou desequilíbrio no Universo, então você vai ter que reequilibrar as coisas. Isso não quer dizer que você vai se ferrar feio. Quer dizer que você precisar aprender uma determinada coisa.

Porque pro Espiritismo, Deus é tão legal, mas tão legal, que te permite consertar as bobagens que você fez.

O Espiritismo tem uma posição claríssima sobre o aborto.

“Questão 358 d’O Livro dos Espíritos: Constitui crime a provocação do aborto, em qualquer período da gestação?

Uma mãe, ou quem quer que seja, cometerá crime sempre que tirar a vida a uma criança antes do seu nascimento, porque isso impede uma alma de passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando.”

É crime. Mas não esqueça que quem responde às perguntas do Kardec são os Espíritos. Afinal, o livro é deles.

E é aí que deixa de valer a MINHA opinião, formada pela minha crença religiosa. Pois uma pessoa que não acredite em Espíritos escrevendo livros não precisa agir de acordo com o que foi escrito por eles.

Aqui começa a parte impessoal do post.

Certo. A opinião do Espiritismo (ou de qualquer outra religião, doutrina ou filosofia) não influencia em nada quando é hora de se fazer uma lei. Afinal de contas, o Estado é laico, nenhum Juiz concursado recomenda apedrejamento, passes ou exorcismo, não é mesmo? (Torçamos para que continue assim.)

Mas a função do Estado é promover o bem comum. E na noção de bem comum, há a idéia de garantir direitos. E o ser humano tem direito à vida. E o Estado tem a função de garantir que exerçamos esse direito enquanto a natureza o permitir. É por isso que nenhum outro ser humano tem direito de chegar comigo e decidir: “Eva, eu cansei de te ver vivendo. Acho que tu é tão chata e mandona que devia sumir.” É por isso que a PM vem, dá uma cacetada no ser humano que estava tentando cercear meu direito à vida e cerceia o direito dele de ir e vir. A PM exerce o Poder de Polícia do Estado – poder que o Estado tem de fazer o máximo possível para promover o bem comum.

Em parte, é por isso que o homicídio é crime. Pela garantia do direito à vida. Em parte por isso, em parte pelo que em Direito se chama costume: a vontade geral é fonte da Lei. [Leia mais sobre isso neste artigo do Jus Navigandi]. Ou seja, as Leis são escritas para que reflitam o costume, o pensamento da sociedade. Há uma lei que diz que não devemos matar gente incômoda, pois isso é o costume. Nenhum legislador colocaria na lei que “caso o cidadão deseje matar alguém muito chato, deve passar em um cartório, com duas testemunhas provando que a pessoa é um porre, pagar uma taxa e cuidar para não sujar o passeio público de sangue”. Porquê? Porque essa lei não refletiria o costume da sociedade.

E é aí que a coisa enrola. Porque a sociedade tem o costume de ter religião. E a sociedade também tem o (péssimo) costume de achar que todos deveriam pensar/acreditar/fazer a mesma coisa.

E é precisamente por isso que discutir sobre descriminalização do aborto é delicado.

O Estado tem o dever de garantir o direito à vida. Mas o que deve ser chamado “vida”? Um bebê chorando? Um feto que conseguiria sobreviver fora da barriga, caso nascesse prematuro? Um embrião que demonstra reações de dor? Um zigoto, que não tem sistema nervoso mas, caso tudo dê certo, pode vir a ser um bebê chorando?

O que é a vida? O legislador que redigir uma lei disciplinando a prática do aborto deve responder a essa – dificílima- pergunta. Sem levar em consideração crenças religiosas ou doutrinas filosóficas, somente a visão científica.

E a ciência também não está muito certa sobre o que é vida, ou quando ela começa.

Essa foi a parte impessoal do post.

Eu realmente não tenho provas científicas sobre quando a vida começa. Tudo me leva a crer que começa na fecundação.

Mas eu tiro minhas conclusões baseadas no que vejo. Um grande amigo e o Namorado. Eu os vi, semana passada. Rindo, contando piadas, comendo pizza e me abraçando.

Esses meninos são maravilhosos (e eu peço desculpas se estou aqui ferindo a modéstia ou desejo deles de não serem citados). Eu os amo, muito. Eles fazem o mundo ficar melhor.

Eles são inteligentes, ajudam a família, terminaram a faculdade, já têm bolsa garantida no mestrado. Como eles mesmo já disseram, convivem lado a lado com pessoas que cometem crimes, e passaram incólumes. Eles são bons filhos, bons amigos, leitores vorazes, e (tenho certeza) serão brasileiros laureados com o Nobel em Física.

Ele foi entregue pra adoção com um dia de idade.

Ele é filho de uma moça de 17 e um rapaz de 19.

Caso o aborto fosse oferecido nos hospitais do SUS aqui no Brasil, a chance de eles não terem nascido seria imensa.

Quando eu olhava pros dois, tão lindos, tão amigos, conversando sobre o vácuo quântico parafusado com estrogonofe (ou coisa parecida), eu me sentia participando de uma festa. A festa da sobrevivência de dois bebês.
E eu pensava com muita, muita força, nas meninas e mulheres que estão frente a frente com essa situação tão difícil, de estar grávida sem estar preparada pra isso. Pensava nelas, pra que elas tivessem coragem, e para que elas soubessem que uma criança é o menor problema que se pode ter. Que pode vir a ser como eles dois. E TODA CRIANÇA devia ter a chance de viver – e ser como eles.

Aos legisladores de Portugal, luz, razão e ponderação.

Às portuguesas (e portugueses que estejam envolvidos na feitura do bebê), carinho, coragem.

Aos brasileiros, reflexão e mais cuidado com as crianças que nascem e não estão conseguindo seguir o caminho que os levará a ganhar o Prêmio Nobel.

terça-feira, 13 / fevereiro / 2007 at 12:54 pm 19 comentários

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Aspas da Semana

Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir. Gibran Khalil Gibran