Archive for julho, 2006

Bela e alta

Eu tinha quatorze anos, e o meu primeiro emprego era ajudar o filho da vizinha a fazer o dever de casa.

Ele estudava no Colégio Militar, e enquanto ele fazia contas e redações, eu lia o compêndio de literatura que eles usavam como livro-base.

E lá, eu li Bilac ouvindo estrelas. Eu vi Mário de Andrade no tempo da camisolinha. E vi Quintana: “Com X se escreve xícara/com X se escreve xixi/não faça xixi na xícara/ o que vão pensar de ti?”

Nesse mesmo ano, o MEC mandou pra minha escola os livros didáticos. Oitava série. Capítulo cinco ou seis.

Tema do capítulo: Fogo.

Texto de abertura: Inscrição para uma lareira.

“A vida é incêndio: nele
dançamos, salamandras mágicas.
Que importa só restem cinzas, se
a chama foi bela e alta?

Em meio aos toros que desabam,
cantemos a cançao das chamas!

Cantemos a can~ção da vida,
na própria luz consumida…”

Quintana, anos antes do meu nascimento, sem saber, escreveu o lema da minha vida.

“Que importa só restem cinzas, se a chama foi bela e alta?”

Que importa?
A chama é bela e alta.

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segunda-feira, 31 / julho / 2006 at 12:14 pm Deixe um comentário

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Policarpe, sério concorrente a segundo homem mais lindo do mundo (o primeiro eu já decidi quem é), retorna após um longo inverno e nos brinda com um texto sincero, emocionado, e que faz todo mundo morrer de inveja. (Imagina, estudar numa biblioteca de frente pro Pão de Açúcar!)

Vão lá. Comentem. É uma ordem. O menino escreve coisas como “desculpem meus amigos, se julgarem que me alonguei demais neste preâmbulo” e fala sobre amigos que “fitam objetivos futuros similares aos meus”. Você não vão querer perder.

Previno: vocês vão sair enfeitiçados.

sexta-feira, 28 / julho / 2006 at 9:07 am Deixe um comentário

Sobre a estranheza

Por que uma pessoa que nunca te viu tendo um ataque de raiva, nunca te viu chorando, nem mesmo conversou mais longamente sobre as suas expectativas na vida, vem pra cima de você com “eu te amo muito, amiga”?

Eu sou muito bicho do mato com algumas coisas.

quarta-feira, 26 / julho / 2006 at 4:40 pm Deixe um comentário

Quero ser o Brilho Eterno de uma Mente que sonha com Che Guevara

*Nota: post altamente confessional*

Eu sou filha única. Quero dizer, tenho meio-irmãos. Mas cresci sozinha, e sou filha única na prática.

Eu era gorda. (Ainda sou.Hum, tá, fofonha. HUm, pessoa com sobrepeso. Hum, mulher normal que pensa que é gorda.) Quando criança, eu era “a gordinha”. Aquela, que toda sala de aula tem, sabe? Era eu mesma. A Laura de Carrossel.

E eu tinha asma. Não tinha pique pra correr na rua.

Ou seja: minha infância foi dentro de casa. Ouvindo música na rede, e lendo os livros do Monteiro Lobato. Zilhões de vezes. Os dezesseis livros do Sítio do Picapau Amarelo, que meu anjo da guarda inspirou minha mãe a me dar de presente de Natal. E os livros “paradidáticos” da escola. E os livros de Português. E os de história. E os de geografia. Quando a secura por livro ficava violenta, até os de matemática. E histórias em quadrinhos da Mônica. Eu tinha mais de quatrocentas revistinhas da mônica. E de cada uma, eu sabia quatro coisas: a capa, o número, os títulos de todas as histórias e a tirinha do final. Sabia MESMO.

Algumas eu sabia de cor, de tanto ler e reler e treler.

“Ora, Menina, e por que reler a mesma história tantas vezes?”

Porque eu não apenas lia. Eu criava o meu próprio roteiro paralelo. E nesse roteiro paralelo, eu estava lá. No mesmo cenário. Às vezes, eu roubava o lugar da personagem mais legal. Às vezes, eu fazia um universo expandido onde eu existia. (E claro que era a mais legal, a mais querida, a necessária, a sensata, a que tinha as melhores idéias e da qual ninguém discordava. Emília, Emília, Emília.)

“Certo, toda criança faz isso, você não era autista nem esquizofrênica, Menina.”

Tudo bem, toda criança faz isso. Eu CONTINUO assim. É impossível pra mim escutar um disco sem fazer o show, com direito a coreografia e fãs subindo no palco. É doloroso ver um filme no cinema e não poder me levantar pra sair caminhando e falando sozinha o texto que se desenrola na minha cabeça. É impossível ler um livro e permanecer isenta.

Detalhe: minha produções são completas, eu imagino as entrevistas que vão entrar nos extras do DVD e os erros de gravação, e as conversas de bastidores e a reação do público sentado no cinema.

E, claro, recito na frente do espelho o meu discurso de agradecimento no Oscar/Grammy/Prêmio Multishow/coisa que os valha. Meu vestido do Oscar é lindo, aliás.

Inclusive, meu indicador pessoal do quanto a pessoa é importante pra mim é quantas vezes ela contracena comigo na minha tela mental. Se eu gosto de alguém, essa pessoa vai interpretar muitos papéis.

E, enquanto estou criando, eu fico zanzando pela casa, fazendo expressões faciais, falando minhas falas, gesticulando, ou chorando, em cenas dramáticas. Sou uma atriz.

É impossível não morrer de vergonha quando a sua mãe vai beber água na cozinha e te escuta falando com ninguém sobre coisas importantes.

Compreendida essa primeira parte, sigamos adiante.

**********

Atenção: a partir daqui os spoilers abundam. Se você não gosta de saber finais, meios ou inícios de filmes, não leia.

Michel Gondry me fez chorar quando vi “Quero ser John Malkovich”. Numa cena, um Manipulador de Marionetes (qual o nome dele?) fabrica uma boneca com a cara da moça que não deu bola pra ele(a Maxine), e cria um ato no qual a situação se inverte. E ela(boneca) se apaixona quando ele(boneco) fala tudo o que não conseguiu falar na vida real. Eu chorei por que, droga, eu FAÇO isso. Sem usar bonecos.

Michel Gondry me fez chorar de novo em “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, um dos melhores filmes da minha vida. Uma das cenas que me causaram soluços é quando o casal principal, Joel (Jim Carrey, na melhor atuação da sua vida) e Clementine (Kate Winslet)estão conversando debaixo do lençol. Quem viu o filme sabe, quem não viu, pare de ler este texto e vá assistir agora mesmo. Clementine diz que quando pequena, dava broncas nas suas bonecas: “Seja bonita! Por que você não é bonita?”

Céus, se tivessem me espionado com uma câmera não ficaria tão parecido comigo.

*************

E agora, veio essa notícia de que o próximo filme do Michel Gondry é sobre sonhos, sonhos que invadem a vida real, sonhos que se têm acordado e pessoas de imaginação fértil.

E, pra completar, o sonhador é o Gael García Che Guevara Bernal.

Michel Gondry vai me fazer chorar de novo. E eu vou adorar.

sexta-feira, 21 / julho / 2006 at 2:48 pm 1 comentário

Cor, quo vado?**

Eu falei pra ele que eu ia ter saudades ele estando em Belém, estando no Rio, eu estando em Manaus, ou em Florianópolis, a saudade ia sempre ser a mesma.

Quebrei a cara. Com ele no Rio, a saudade tá monstruosamente insuportável.

Alguém pode explicar pro meu cérebro que a situação é a mesma, ou seja, eu aqui ele lá, e a localização deste “lá” não tem diferença prática no meu dia a dia de profissional, estudante, pessoa, filha, “cerumana”?

Tá. E o Google Earth, de sacanagem comigo, se recusa a mostrar o Cristo. Eu mato, ou melhor, eu desinstalo.

*****

Tudo bem, eu fico olhando a Baía da Guanabara.

Estatísticas confirmam que 87% das namoradas idiotas beijam fotos.
Eu devo ser a única que beija mapas do Google.

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** Em latim: Coração, pra onde vou? Lindo, né?

quinta-feira, 20 / julho / 2006 at 5:07 pm Deixe um comentário

O título não entra na contagem

Hoje, eu queria escrever setecentas e trinta palavras deslumbrantes.
Queria escrever o melhor texto da minha vida.

Eu queria ter o talento de 730 Quintanas.

Eu queria escrever um poema que mudasse a humanidade. Que durasse pra sempre, e inventasse um sentimento novo. Que os séculos passassem, e ninguém lembrasse de mim ou do poema, mas que ele permanecesse como o eco de setecentos e trinta corações batendo.

Eu queria ter dinheiro pra comprar setecentas e trinta lírios, e queria carregar todos em uma mochila e entregá-los pessoalmente.

Hoje, eu queria gozar setecentas e trinta vezes. Dar setecentas e trinta risadas.

Hoje eu queria que o dia tivesse setecentas e trinta horas.

Queria ver setecentos e trinta pôres-do-sol.

Queria conhecer setecentas e trinta cidades diferentes; queria bater setecentas e trinta fotos.
Hoje eu queria renascer setecentas e trinta vezes.

Eu queria beber setecentos e trinta copos de suco de laranja. Conversar sobre setecentas e trinta coisas. Enxergar as setecentas e trinta verdades e inventar setecentas e trinta piadas.

Eu queria ler setecentos e trinta livros perfeitos. Assistir setecentos e trinta filmes.

Hoje eu queria ser setecentos e trinta segundos em que eu pensasse que o mundo está perfeito do jeito que está.
Hoje eu queria descascar setecentos e trinta tucumãs.

Esta noite eu queria ser setecentas e trinta pra você. Queria atravessar o céu refulgindo como setecentos e trinta diamantes, roubar setecentas e trinta estrelas e jogá-las aos teus pés.

Esta noite, eu queria setecentos e trinta abraços, setecentos e trinta sorrisos, setecentas e trinta sensações.

E eu deitaria ao seu lado ao ar livre, e nós contaríamos setecentas e trinta estrelas.
E cantaríamos setecentas e trinta músicas.
E inventaríamos setecentas e trinta coreografias.

E o mundo teria respeito e ia girar setecentas e trinta vezes mais devagar.

Hoje eu queria que setecentas e trinta grandes idéias acontecessem. E que essas idéias fossem tão boas, que o inventor se perguntasse: “Como ninguém pensou isso antes?”

E que setecentos e trinta escritores tivessem seus livros publicados, e que fossem livros muito bons, que fizessem a Humanidade dar uns setecentos e trinta passos adiante.

Setecentas e trinta pessoas descobrindo como é que se faz pra ser feliz, e contando a fórmula pra mais setecentas e trinta.

Setecentos e trinta instrumentos musicais soando a primeira nota.

Setecentas e trinta espécies saindo da lista dos ameaçados de extinção.

Hoje eu queria escrever uma carta de setecentas e trinta páginas. Pendurar no céu da Guanabara setecentos e trinta cartazes.

Hoje eu queria que setecentas e trinta crianças tivessem um sonho realizado.

Queria que setecentos e trinta casais distantes se abraçassem.

Hoje eu queria que setecentas e trinta pessoas se cansassem de errar e decidissem esquecer os erros, e que elas cometessem setecentos e trinta acertos.

Setecentos e trinta problemas resolvidos.

Setecentos e trinta pedidos de desculpas aceitos.

Eu queria que, quando eu escrevesse o meu texto, se materializassem setecentas e trinta coisas belas.
Que setecentas e trinta pessoas rissem até doer a barriga, e outras setecentas e trinta chorassem até sentir como se setecentos e trinta quilos tivessem saído das costas.

Queria escutar setecentas e trinta crianças cantando músicas de Natal.

Aliás, hoje eu queria enfeitar setecentas e trinta árvores de Natal.

Eu queria que setecentas e trinta pessoas que estivessem doentes ficassem boas. Que setecentos e trinta homens sérios tirassem a gravata. Que setecentas crianças aprendessem a ler exatamente hoje. Que setecentos e trinta sapatos apertados fossem tirados de setecentos e trinta pés doloridos.

Eu queria setecentas e trinta alegrias pequeninas.

Hoje eu queria que setecentas e trinta platéias aplaudissem de pé.

Setecentas e trinta nuvens de chuva no céu.

Setecentas e trinta frutas maduras comidas no pé.

Setecentas e trinta fomes saciadas.

Setecentas e trinta pessoas descobrindo-se apaixonadas.

Setecentos e trinta gritos de gol.

Setecentos e trinta gemidos de prazer.

Setecentas e trinta razões de viver.

Eu queria escrever um texto setecentas e trinta vezes melhor do que o meu melhor texto. Mas acho que só vou conseguir escrever esse aqui.

Dois anos. Setecentos e trinta dias. Um amor que aprendeu a morrer e renascer transformado, setecentas e trinta vezes. Que me fez chorar muito mais que setecentas e trinta lágrimas, e que vem me fazendo 730 vezes mais feliz do que eu era quando pisei em Cuiabá e senti aquele vento frio de treze graus.

Querido,parabéns pra mim e pra você.

quarta-feira, 19 / julho / 2006 at 9:11 am Deixe um comentário

Repositório da Sabedoria

Meu Deus.
Meu Deus.
Meu Deus.

Arno Sem Norte é o culpado.

Nunca mais vou conseguir trabalhar.

Arno me mostrou o “repositório da Sabedoria“.

Cuidado. Não é vírus. Mas é viciante. É enlouquecedor. É bárbaro. Nunca mais vou conseguir parar.

E não sei se consigo terminar.

Licença. Neil Gaiman tá me esperando. Amanhã é Chico Buarque.

Meu Deus.

P.S.: Bom é saber que quem não lê o MEU blog, não vai ficar sabendo, HAHAHAHAHA!

terça-feira, 18 / julho / 2006 at 12:12 pm Deixe um comentário

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Aspas da Semana

Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir. Gibran Khalil Gibran