Brasília: o avião, a padaria e a banheira (Parte três)

domingo, 29 / janeiro / 2006 at 1:35 am 1 comentário

E depois de ser abençoada por um avião, qual a primeira coisa em que a pessoa pensa?

Menin@ – Mas sim, a gente anda, anda, e só tem CASA…
Artista – A gente pode perguntar mais ali à frente, se você não ficar morrendo de vergonha…
Menin@ – Ali tem duas padarias, a gente pergunta lá. Qual das duas? OLHA, aquela padaria ali vende açaí!
Artista – Será que é açaí de verdade ou POWER açaí, com granola e banana?
Menin@ – Argh, sacrilégio fazer isso com açaí.

Entramos na padaria.

Artista – Oi, o açaí de vocês é normal? *risadas*
Balconista – Como?
Menin@ – A gente queria saber se ele vem com aquelas gororobas. *risadas*
Balconista – Ele vem congelado em sacos de um litro.
Dono – O nosso açaí e original do Pará, um amigo meu manda de lá.
Artista – Mas que coisa fantástica! Eu sou do Pará, como o seu açaí! *risadas*
Dono – Estão a passeio? Lua-de-mel?

Nos entreolhamos, meio sem jeito. Notava-se tanto assim?

Menin@ – Não, eu sou de Manaus…estamos participando de um congresso de estudantes.
Artista – Estamos na UNB, sabe a UNB?
Menin@ – Estávamos passeando, e vimos a faixa vendendo açaí, e pensamos: ora, nós somos do Norte, o açaí também, vamos entrar!
Artista – E precisamos de uma informação. Vocês sabem onde é que nós encontramos um…
Menin@ – …lugar pra almoçar? É que nós andamos muito a manhã inteira.(Ele me olhou com cara de bronca.) Qualé, vai dizer que você não tá com fome?
Artista – Várias fomes…
Menin@ – (Vermelha que nem urucum) Er…ahn…Pois é, onde vende almoço aqui por perto?
Dono – Olha, restaurante aqui perto não tem não. Mas vocês podem ir lá pra Rua-de-Cinco-Pistas, pegar o Ônibus Fulano de Tal e descer no…
Casal-Interestadual – NÃO!

*Dono e Balconista com cara de espanto. Outros dois balconistas vieram lá de dentro, ver o que tava acontecendo.*

Menin@ – Olha, não tem açaí pronto, aí? Ia ser engraçado, nós dois virmos do Norte pra almoçar açaí no Planalto Central, né?
Balconista *desconfiada* – Só tem açaí congelado, em sacos de um litro.
Menin@ – Então a gente pode comer algo aqui mesmo! Por exemplo, *apontando a primeira coisa que viu na vitrine* esse bolo com cobertura de chocolate! Quanto é a fatia?
Balconista – Um real. É de cenoura.
Menin@ – Olha que perfeito! Praticamente uma salada! Me dá UMA fatia.
Balconista – *desconfiada* Pra vocês dois almoçarem?
Artista – *disfarçando* Depois a gente escolhe outra coisa…

*Balconista dando um retângulo de bolo pra mim*

Gente, não sei direito, eu estava com fome, mas aquele foi um dos bolos mais gostosos que eu já comi. Era bem laranja, com pedacinhos de cenoura, e a cobertura de chocolate era uma casquinha, como aquelas de picolé skimo.
Arregalei os olhos de surpresa e prazer. O Artista também aprovou.

Menin@ – Me dá mais três fatias? Embrulha duas pra viagem e a outra ele come aqui mesmo. Mas que delícia de bolo!
Artista – Vou ver se quero mais alguma coisa.

Ele foi zanzar, e eu saí da padaria pra olhar a rua. Olhei de um lado, casas e casas. Olhei do outro, e, duas casas depois da padaria, um luminoso de neon! HOTEL CACIQUE.

Pensamento: “Obrigada, papai do céu.”

O Artista tinha comprado mais alguma coisa – que eu não consigo lembrar se era pão de queijo ou refrigerante, mas podia também ter sido pizza – e estava encantando a todos os funcionários da padaria com seu bom humor e inteligência.

Tá bom, tá bom, ele só tava fazendo piadas sobre o POWER-Açaí. Mas os balconistas e o dono estavam adorando.

Artista – …e aí eu olhei pra placa: temos açaí com granola, açaí com sucrilhos, açaí com banana…E eu pensei: se esse doido fosse vender açaí com banana em Belém, ia ser multado pela vigilância sanitária!
Balconistas (Todas eram mulheres, eu lembro direitinho, hunf) Hahahaha…Por quê?
Menin@ – Porque em Belém, açaí é considerado uma fruta que não combina com outras coisas, por ser indigesto. Por exemplo: manga com leite, melancia com feijão, repolho com ovo. Se você toma açaí, deve evitar comer coisas pesadas, como banana, pão, melancia. E tomar um golinho d’água lavando o fundo copo ou da tigela em que você tomou o açaí, pra evitar azia.
Balconistas – ahhhhhhhhhhhhhh….
Menin@ – Bem, então, muito obrigada por tudo, a cidade de vocês é LINDA, estou apaixonada.
Artista – Ah, vocês sabem informar…
Menin@ – *beliscão no braço dele*
Artista – …nada, deixa pra lá.
Saímos da padaria com muitos risos e piadas.

Fora da padaria:Artista – Sim, e qual o seu plano?
Menin@ – *O segurando pelo ombros e girando pra enxergar a placa*
Artista – Mas sim, o que é….ahhh, CACIQUE? Só pode ser um sinal!
Menin@ – Que nem a padaria do açaí. Estamos muito sortudos, nós dois.Artista – Na cidade em forma de um avião, um avião passa sobre nós dois, encontramos açaí do Pará e um Cacique feito de neon. Se eu fosse superticioso, eu diria que este momento é pra ser vivivo intensamente…
Menin@ – Nem precisa ser superticioso… Acho que encontramos.
Artista – E você nem precisou perguntar na padaria, né? (Sorriso)Vergonha de perguntar pro Poeta, de telefonar pra perguntar, de pedir informação do cobrador, de pegar o Ônibus que vinha pro Setor de Motéis… Mas você é muito envergonhada…Que boba, ficar com vergonha. Ninguém aqui te conhece, você não vai ficar devendo nada pra ninguém.
Menin@ – Ahn…Não sei, não é fácil.

Entrando no Hotel Cacique.

Artista – Oi, vocês têm um quarto?
Atendente – Pra casal?

*Tremenda vontade de rir*

Artista – É, pra nós.
Atendente – (Fazendo cara de “Ih, não tem mala? Saquei tudo…”) Doze horas são noventa reais.

FACADA!

Menin@ – Mas sim, nós só vamos ficar três horas, pois às duas temos de estar na UNB. (Sorrindo feliz) Quanto você faz?
Atendente – Senhora, eu posso deixar por sessenta reais…
Menin@ – Tá. (Sorrindo e fazendo beicinho) E pra mim, que sou sua amiga? Por quanto você deixa?

Atendente e Artista rindo.

Atendente – (Ainda rindo, jogando duas chaves no balcão) Esse é quarenta, esse é quarenta e cinco.
Menin@ – (Rindo também) Pego a de quarenta e cinco, que eu sei muito bem pra quem vão esses cinco reais…

Peguei a chave com a mão direita, puxei o Artista com a esquerda, e subi a escada.

Quando chegamos na porta do quarto, olhei pra ele e comecei a rir. Ele me olhava como se olha pra uma berinjela vestida com a roupa do Chacrinha.

Artista – Mas sim, me explica, pra onde foi a vergonha?
Menin@ – Perdi, foi pro beleléu. Não há mais TEMPO de ter vergonha…

Mais uma vez, o meu coração caiu de joelhos com aquele sorriso lindo e franco.

Entreguei a chave pra que ele abrisse a porta.
Entramos.

*************************************
continua…

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