Archive for janeiro, 2006

Brasília: o avião, a padaria e a banheira (Parte três)

E depois de ser abençoada por um avião, qual a primeira coisa em que a pessoa pensa?

Menin@ – Mas sim, a gente anda, anda, e só tem CASA…
Artista – A gente pode perguntar mais ali à frente, se você não ficar morrendo de vergonha…
Menin@ – Ali tem duas padarias, a gente pergunta lá. Qual das duas? OLHA, aquela padaria ali vende açaí!
Artista – Será que é açaí de verdade ou POWER açaí, com granola e banana?
Menin@ – Argh, sacrilégio fazer isso com açaí.

Entramos na padaria.

Artista – Oi, o açaí de vocês é normal? *risadas*
Balconista – Como?
Menin@ – A gente queria saber se ele vem com aquelas gororobas. *risadas*
Balconista – Ele vem congelado em sacos de um litro.
Dono – O nosso açaí e original do Pará, um amigo meu manda de lá.
Artista – Mas que coisa fantástica! Eu sou do Pará, como o seu açaí! *risadas*
Dono – Estão a passeio? Lua-de-mel?

Nos entreolhamos, meio sem jeito. Notava-se tanto assim?

Menin@ – Não, eu sou de Manaus…estamos participando de um congresso de estudantes.
Artista – Estamos na UNB, sabe a UNB?
Menin@ – Estávamos passeando, e vimos a faixa vendendo açaí, e pensamos: ora, nós somos do Norte, o açaí também, vamos entrar!
Artista – E precisamos de uma informação. Vocês sabem onde é que nós encontramos um…
Menin@ – …lugar pra almoçar? É que nós andamos muito a manhã inteira.(Ele me olhou com cara de bronca.) Qualé, vai dizer que você não tá com fome?
Artista – Várias fomes…
Menin@ – (Vermelha que nem urucum) Er…ahn…Pois é, onde vende almoço aqui por perto?
Dono – Olha, restaurante aqui perto não tem não. Mas vocês podem ir lá pra Rua-de-Cinco-Pistas, pegar o Ônibus Fulano de Tal e descer no…
Casal-Interestadual – NÃO!

*Dono e Balconista com cara de espanto. Outros dois balconistas vieram lá de dentro, ver o que tava acontecendo.*

Menin@ – Olha, não tem açaí pronto, aí? Ia ser engraçado, nós dois virmos do Norte pra almoçar açaí no Planalto Central, né?
Balconista *desconfiada* – Só tem açaí congelado, em sacos de um litro.
Menin@ – Então a gente pode comer algo aqui mesmo! Por exemplo, *apontando a primeira coisa que viu na vitrine* esse bolo com cobertura de chocolate! Quanto é a fatia?
Balconista – Um real. É de cenoura.
Menin@ – Olha que perfeito! Praticamente uma salada! Me dá UMA fatia.
Balconista – *desconfiada* Pra vocês dois almoçarem?
Artista – *disfarçando* Depois a gente escolhe outra coisa…

*Balconista dando um retângulo de bolo pra mim*

Gente, não sei direito, eu estava com fome, mas aquele foi um dos bolos mais gostosos que eu já comi. Era bem laranja, com pedacinhos de cenoura, e a cobertura de chocolate era uma casquinha, como aquelas de picolé skimo.
Arregalei os olhos de surpresa e prazer. O Artista também aprovou.

Menin@ – Me dá mais três fatias? Embrulha duas pra viagem e a outra ele come aqui mesmo. Mas que delícia de bolo!
Artista – Vou ver se quero mais alguma coisa.

Ele foi zanzar, e eu saí da padaria pra olhar a rua. Olhei de um lado, casas e casas. Olhei do outro, e, duas casas depois da padaria, um luminoso de neon! HOTEL CACIQUE.

Pensamento: “Obrigada, papai do céu.”

O Artista tinha comprado mais alguma coisa – que eu não consigo lembrar se era pão de queijo ou refrigerante, mas podia também ter sido pizza – e estava encantando a todos os funcionários da padaria com seu bom humor e inteligência.

Tá bom, tá bom, ele só tava fazendo piadas sobre o POWER-Açaí. Mas os balconistas e o dono estavam adorando.

Artista – …e aí eu olhei pra placa: temos açaí com granola, açaí com sucrilhos, açaí com banana…E eu pensei: se esse doido fosse vender açaí com banana em Belém, ia ser multado pela vigilância sanitária!
Balconistas (Todas eram mulheres, eu lembro direitinho, hunf) Hahahaha…Por quê?
Menin@ – Porque em Belém, açaí é considerado uma fruta que não combina com outras coisas, por ser indigesto. Por exemplo: manga com leite, melancia com feijão, repolho com ovo. Se você toma açaí, deve evitar comer coisas pesadas, como banana, pão, melancia. E tomar um golinho d’água lavando o fundo copo ou da tigela em que você tomou o açaí, pra evitar azia.
Balconistas – ahhhhhhhhhhhhhh….
Menin@ – Bem, então, muito obrigada por tudo, a cidade de vocês é LINDA, estou apaixonada.
Artista – Ah, vocês sabem informar…
Menin@ – *beliscão no braço dele*
Artista – …nada, deixa pra lá.
Saímos da padaria com muitos risos e piadas.

Fora da padaria:Artista – Sim, e qual o seu plano?
Menin@ – *O segurando pelo ombros e girando pra enxergar a placa*
Artista – Mas sim, o que é….ahhh, CACIQUE? Só pode ser um sinal!
Menin@ – Que nem a padaria do açaí. Estamos muito sortudos, nós dois.Artista – Na cidade em forma de um avião, um avião passa sobre nós dois, encontramos açaí do Pará e um Cacique feito de neon. Se eu fosse superticioso, eu diria que este momento é pra ser vivivo intensamente…
Menin@ – Nem precisa ser superticioso… Acho que encontramos.
Artista – E você nem precisou perguntar na padaria, né? (Sorriso)Vergonha de perguntar pro Poeta, de telefonar pra perguntar, de pedir informação do cobrador, de pegar o Ônibus que vinha pro Setor de Motéis… Mas você é muito envergonhada…Que boba, ficar com vergonha. Ninguém aqui te conhece, você não vai ficar devendo nada pra ninguém.
Menin@ – Ahn…Não sei, não é fácil.

Entrando no Hotel Cacique.

Artista – Oi, vocês têm um quarto?
Atendente – Pra casal?

*Tremenda vontade de rir*

Artista – É, pra nós.
Atendente – (Fazendo cara de “Ih, não tem mala? Saquei tudo…”) Doze horas são noventa reais.

FACADA!

Menin@ – Mas sim, nós só vamos ficar três horas, pois às duas temos de estar na UNB. (Sorrindo feliz) Quanto você faz?
Atendente – Senhora, eu posso deixar por sessenta reais…
Menin@ – Tá. (Sorrindo e fazendo beicinho) E pra mim, que sou sua amiga? Por quanto você deixa?

Atendente e Artista rindo.

Atendente – (Ainda rindo, jogando duas chaves no balcão) Esse é quarenta, esse é quarenta e cinco.
Menin@ – (Rindo também) Pego a de quarenta e cinco, que eu sei muito bem pra quem vão esses cinco reais…

Peguei a chave com a mão direita, puxei o Artista com a esquerda, e subi a escada.

Quando chegamos na porta do quarto, olhei pra ele e comecei a rir. Ele me olhava como se olha pra uma berinjela vestida com a roupa do Chacrinha.

Artista – Mas sim, me explica, pra onde foi a vergonha?
Menin@ – Perdi, foi pro beleléu. Não há mais TEMPO de ter vergonha…

Mais uma vez, o meu coração caiu de joelhos com aquele sorriso lindo e franco.

Entreguei a chave pra que ele abrisse a porta.
Entramos.

*************************************
continua…

domingo, 29 / janeiro / 2006 at 1:35 am 1 comentário

Morena de Cabelos da cor do Rio Negro

Eu amo as casas antigas restauradas, eu amo as bancas de café da manhã que vendem tapioquinha, café com leite e pão com tucumã, eu amo peixe com molho de camarão, eu amo ir em aniversários e encontrar vatapá com maionese e arroz, eu amo show de graça de terça a domingo, eu amo peça teatral de graça, ópera de graça, palhaços na Praça, ruas largas, distâncias compridas, trabalhar de sandália de dedo, motoqueiros andando de regata, músicas que falam sobre barcos, rios, peixes e amores, cantores que você encontra nas baladas, cd’s originais a menos de dez reais, uma Universidade que fica dentro de uma reserva florestal, barraca de banana frita na esquina, Sol ardente às nove e chuva torrencial às nove e meia, açaí com farinha de tapioca, pirarucu de casaca, costela de tambaqui, toada de boi-bumbá, discutir sobre Garantido e Caprichoso, Carnaval que termina com cinco escolas empatadas em primeiro lugar…

Gente, eu amo tanto Manaus que vocês nem imaginam.

Nota: reparem no Encontro das Águas, abaixo, à esquerda. Repararam? É mais lindo ainda de perto, viu?

quinta-feira, 26 / janeiro / 2006 at 3:13 pm 2 comentários

Meus grandes amores.

O Teatro Amazonas.

Porque ele é lindo, porque ele é chique, porque eu entrei nele com oito anos pra assistir um balé e me apaixonei pelo teto do teatro.

Coisa linda da mamãe...

A cúpula do Teatro…

Porque ela é GUEI, MUITO GUEI, porque ela é diferente de qualquer coisa que eu já tenha visto, e porque quando eu era menor, sonhei que entrava num elevador secreto e chegava nela.

Ano passado, eu consegui chegar lá, depois de revirar cada canto mal-assombrado do Teatro.

E lá é o céu. É o céu, nao tem outra palavra.
Melhor que estar no céu é levar junto quem você ama.

Eu já estive nessa parte azul e vermelha.

o Congresso Nacional…

Porque ele é diferente, reto e curvo, com aqueles dois pratos, na ponta no nariz do Avião-Brasília.

E outro motivo que eu só notei na aula de Administração Financeira Pública:

é lá que é a casa do povo. Eu sei, aqueles representantes são o fim da picada, e tudo…Mas o Congresso é o povo, decidindo o país através de seus representantes eleitos.

Gente, isso é muito bonito, muito mesmo. Eu queria que a democracia funcionasse como nos livros de Financeira Pública.

E eu, intuitivamente, sabia que aquele prédio era bem mais que dois pirulitos e dois pratos…

Foto batida por MIM!

A mata da UFAM (a pedido de Cláudia)

Eu estudo a, ó!

Meus GRANDES amores…

quarta-feira, 25 / janeiro / 2006 at 2:45 am 1 comentário

Onde estará?

Estou muito triste, de uma tristeza meio grudenta. Já tentei lavar com água e sabonete, mas ela não estava na pele.

Tentei beber leite com canela, mas ela não estava na boca.

Vesti meu vestido azul, mas não era no corpo que ela estava.

Agora, eu me esforço pra dissolvê-la usando água salgada. Talvez ela esteja nos olhos.

quarta-feira, 25 / janeiro / 2006 at 2:00 am Deixe um comentário

One day, I’ll go dancing on the moon…

Só pra constar: a mamãe estava vendo MTV (ela detesta MTV), e começou a passar o clipe de Someday We’ll Know, e eu fiquei tristetristetriste.

“Someday we’ll know
Why love can’t move a mountain?”

Um dia, né?

E hoje eu tava pensando: este ano eu ainda não o vi.

Eu e ele estávamos pelo msn somando quanto tempo passamos JUNTOS, no sentido dicionárico da coisa.

Somando os dias em que estávamos na mesma cidade,ao mesmo tempo, dá um mês, uma semana e um dia.

“Why ain’t you here with me
TONIGHT?”

******************

Pra onde eu tô indo? Onde eu vou chegar? Quanto tempo vai levar?

“I’ve bought a ticket to end of the rainbow…”

E o que virá depois?

******************

“Why Sanson loves Dalilah?”

quarta-feira, 25 / janeiro / 2006 at 1:41 am Deixe um comentário

Espera

Última aula… Junta os papéis em cima da mesa, os pincéis e os livros… Aquele aluno de sempre vem tirar as dúvidas… Bom, pelo menos ele é interessado, entre tantos que resolvem que estudar na última semana é uma boa estratégia… Ok. Responder, responder…
Abrir a sala… Responder mais perguntas, agora do meu orientando… Sim, amanhã às duas da tarde… É um bom horário, depois da sua aula… E aquela integral? Não saiu? Olha, que tal esse livro? Não, meu querido… Fourier, não Laplace…
Estacionamento… Odeio deixá-la sem carro, mas que posso fazer com o meu costume de sempre acordar quando ela me faz aquele cafuné na cabeça!? Bom, agora quem paga é ela, já que hoje eu tinha que passar prova e não poderia me atrasar… A uma hora dessas ela deve estar dentro do ônibus, pensando o quanto não importa a cidade, sempre os ônibus são lentos e o trânsito não ajuda. Realmente, não importa a cidade…
Ok, carro… Rápido, rápido… Sim, amigo, isso é um carro, não uma charrete… Pode pisar no acelerador… Obrigado…
Trânsito, mais trânsito… Mas tenho que chegar logo. Ok, bairro, rua, essa rua com tantas casas com jardim… Ela que escolheu… Rio ao lembrar da escolha “racional” dela: “Tem jardim! Ótimo! Compramos!”. “Mas filha, você não acha…”. “Ah, você sabe que sempre quis morar numa casa com jardim, né??”
É, eu sei. Para mim um apartamento com samambaia já resolvia o caso, mas como resistir àquele olhar dela?
Estacionar… Sai do carro, abre portão, entra no carro, estaciona, sai do carro, fecha portão… Tudo bem…
Chaves… Ok, a última chave que toca no lado esquerdo do chaveiro… só assim para não se enganar com tantas…
Casa. Ufa… Só quero descansar um pouco… Sofá… Fizemos questão de comprar um parecido com o da mãe dela, que são tão confortáveis. Só um dez minutos de descanso… Como era aquela integral que o aluno me falou?
Tiro o livro, que ela diz que é “Cheio de letrinhas gregas…” Acho uma graça ela tentando entender “as loucuras da minha concorrente”… Ela com as mãos no queixo, me olhando enquanto explico coisas que sei que não são tão simples… Devo confessar que também não entendo nada do trabalho dela, com todas aquelas coisas de gerenciamento de não sei o quê… Mas sim, deixa de viajar em pensamentos e volta à integral…
O barulhinho dela se atrapalhando com as chaves… É sempre o mesmo barulhinho inconfundível… Provavelmente vai reclamar do cadeado e dessa mania de ler com a luz fraca que vem do poste que acabou de acender lá fora… Mas só depois…
“Boa noite”, e aquele sorriso… Ela chega perto e coloca os dedos na minha nuca… Ela sabe o quanto gosto disso…

Deixo o livro cair no chão, e ela deita no meu colo… Mordo o seu queixo e ela me pede “calma”…

Ela sempre acha que dá tempo de chegar ao quarto…

*******************

Sim, foi ele quem escreveu a resposta.

Me digam: esse cara devia ou não ter um blog?

domingo, 22 / janeiro / 2006 at 11:21 pm Deixe um comentário

Chegada

Acaba o dia de trabalho. Tiro o casaco e saio do edifício , desço três andares de escada por impaciência de esperar o elevador chegar. Impaciência.

Tudo parece demorar o dobro do tempo. Enquanto subo a ladeira, penso que sapatos de salto são lindos, mas nem um pouco úteis quando se tem pressa. Anoitecer. O ônibus recusa-se a passar. Quando passa, recusa-se a andar depressa. Todos os sinais ficam vermelhos, e todos os caminhões da cidade estão bloqueando meu caminho. Impaciência.

Após longos minutos de tortura e espera, desço do ônibus. Três quarteirões, só faltam três quarteirões.Impaciência. Toc, toc, toc, toc, vinte e um, vinte dois, vinte toc, vinte quatro, toc toc toc, falta pouco. Anoitecer.

Jardim. Anoitecer. Cadeado – MANIA DE TRANCAR ESSE CADEADO, Ô HOMEM… -, fechar portão e cadeado. Porta, chave…chave errada.Impaciência -Sempre é a última chave que a gente tenta. – Chave certa, abrir a porta…

Você. Penumbra. Você lendo, deitado no sofá, as pernas pra cima.Forçando a vista no escuro. Algum desses livros cheios de letras gregas que você usa pra dar aula. “Boa noite.” Sorrio. Meus dedos na sua nuca, leveza. Seu suspiro. O de sempre.

O livro de letras gregas escorrega. Eu sentada no seu colo. Leveza. Você morde o meu queixo. -Calma…

Não dá tempo de chegar no quarto.Essa sua impaciência.

sábado, 21 / janeiro / 2006 at 10:53 pm 1 comentário

Brasília: o avião, a padaria e a banheira (Parte 2)

Bem, eu e o Artista descemos do ônibus, após a placa indicativa de Núcleo Bandeirantes.

Devo dizer que, quando ouvi falar em SETOR DE MOTÉIS, imaginava algo do tipo setenta motéis, todos com placas de neon, um vizinho do outro, como uma grande feira livre, ou aquelas ruas de camelôs, onde os porteiros bateriam palmas para atrair fregueses.

E me vi desorientada: estava na calçada de uma avenida com cinco pistas, e tudo o que tinha na minha frente era uma ruazinha transversal. Com construções que pareciam casas – e nenhuma placa de neon.

Pensamento: “E agora?”

Artista: E agora?
Menin@: Bem…(olhando pra todos os lados, vendo nada mais que uma rua cheia de casas) Podemos ir por aquela rua e…pedir informação.
Artista: (rindo da minha cara) Mas não é você quem morre de vergonha de perguntar sobre esse tipo de “estabelecimento comercial?”
Menin@: Estamos perdidos, numa cidade estranha, e você vai embora amanhã. Não há tempo a perder…
Artista: (Engolindo em seco) É, amanhã eu vou embora.

(Longa pausa cheia de tristeza)

Menin@: Mas isso é só amanhã! Você está aqui, do meu lado…Eu estou segurando sua mão, lembra?

A gente se abraçou, na calçada de uma avenida com cinco pistas. Eu tive aquela mesma sensação que sempre tenho com ele: que eu sou feita de uma mistura de carne e sonho, que aquelas coisas todas acontecendo (ônibus/cobrador/asfalto/avenida/céu azul de Brasília/setor de motéis) faziam pouco ou nenhum sentido, que eu devia estar na minha casa aproveitando o feriado espremido. Que diabos, por que eu me meti nessa história complicada, se eu sei que ele mora em Belém e eu moro em Manaus, e isso não vai mudar nos próximos dois anos? Porque eu não acabo com isso de ficar esperando avião/dinheiro/oportunidade, e desfaço esse relacionamento doloroso e que sobrevive se alimentando de saudade?

A gente ficou abraçado na calçada um bom tempo. E eu pensando que, assim que ele me soltasse daquele abraço, eu ia dizer pra gente largar de ser besta, voltar pra UNB e levar vida de gente normal, trocando e-mails normais, sem declarações de amor, talvez um texto do Veríssimo. Eu cheguei até a abrir a boca com a intenção séria de dizer isso.

Ele soltou o abraço, me olhou nos olhos e disse:

– É, eu vou embora amanhã, mas amanhã ainda não chegou, e eu ESTOU AQUI COM VOCÊ E SOU O FÍSICO MAIS FELIZ DE BRASÍLIA!

Eu fechei a boca. Aquilo tudo eu posso dizer quando ele estiver indo embora de Brasília, não precisa ser agora. Pensando bem, eu posso dizer ano que vem.

Ele me abraçou de novo e me rodopiou no ar. E eu esqueci tudo o que tinha pensado antes; ora pinóia, que perda de tempo, vamos atravessar logo essas cinco pistas e pedir informação!

Ficamos esperando os carros passarem, e nunca parava de passar carro. Foi ele quem lembrou:

Artista: Ei, em Brasília é só por o pé na rua que os carros param!
Menin@: Nós somos dois nortistas, mesmo!

Botamos o pé na rua, e foi incrível: os carros pararam todos, em fila, esperando a gente passar. Comecei a atravessar correndo, mas ele me segurou:

Artista: Deixa de ser índia, menininh@. Eles vão parar.

Desfilamos na frente de uma fila de carros, rindo muito por estarmos estrelando uma cena tão bizarra.

*****

Ao fim da travessia, chegando na ruazinha, eu vi um senhor de seus cinquenta anos lavando um monza verde (inesquecível), uma criança andando de bicicleta pela rua, muitos carros estacionados, casas com jardim na frente. Nenhuma placa de neon. Nenhum aviso de “Entrada” ou “Saída”. Nem mesmo uma luz vermelha acesa em cima de alguma casa.

Menin@- Pedimos informação?
Artista – Pro velho ou pra criança?
Menin@ – ahn…Vamos em frente.

Continuamos andando. Eu falando da visita e das fotos que havia tirado no Eixo Monumental, ele dizendo que todos os colegas iam fazer esse city tour na hora do almoço, e…bem…ele não ia estar lá. Eu falando do quanto tinha sido divertida a noite anterior, mesmo com show da Daniela Mercury, e do quão impressionada eu ficara com a capacidade dela de dançar e cantar ao mesmo tempo – coisa que eu sei ser muito difícil. Ele falando da bagunça que a delegação do Pará fizera durante a viagem de ônibus, passando por Maranhão, Tocantins, Goiás, batendo foto de qualquer coisa, até de nuvens com formato de cupuaçu (só vendo um cupuaçu pra entender a graça da piada). Falou também sobre como estava ansioso para conhecer Manaus, e para fazer a primeira viagem de avião da vida dele.

Escutei um barulho, e olhei pra cima. Era um avião. Riscando o céu azul-paraíso de Brasília, os reflexos do sol quente da manhã batendo na fuselagem. Parecia feito de espelhinhos. Tive um ataque de infância:

Menin@ – Um “vião”! Óla só, o vião vuando lá no chéu de Basília!

Levantei os braços, tentando dar tchau pro piloto do avião. Ele riu um riso triste:

Artista: É num desses que você vai voltar pra casa…
Menin@: Mas você também vai andar de avi…NOSSA!
Artista: NOSSA!

Levamos um tranco, os dois. O avião passou embaixo do sol, acima de nós, e a sombra imensa nos cobriu, como um soco indolor, o melhor susto que já levei. A sombra do avião passou abençoando a nós dois, e eu não precisava de mais nada para ser absolutamente feliz.

Artista: ÉGUA! ÉGUA! ÉGUAAAAAAAAAA!
Menin@: Que FANTÁSTICO! Olha já como é que tô!
Artista: Eu também!
Menin@: …e foi bem assim, PÁ!
Artista: EU TE AMO!
Menin@: Eu te amo mais!

A gente endoidou e começou a pular rodopiando no meio da rua do Núcleo Bandeirantes. Começamos a rir como duas pessoas que estivessem intoxicadas por oxigênio puro, e ríamos rodando, abraçados, na certeza de que, se tínhamos sido abençoados por um avião, a nossa história de amor podia ser feliz e cheia de aviões voando entre Belém e Manaus. Nos beijamos, e eu estava tão feliz que se alguém me pedisse pra explicar naquela hora, eu iria chorar até inundar Brasília, de tanta comoção.
Como não precisei explicar nada pra ninguém, continuei andando em frente, encostada no ombro do meu amor, de vez em quando apertando a mão dele só pra ter certeza de que ele era real mesmo, que não ia desvanecer-se no ar quando eu fechasse os olhos.
Eu apertava a mão dele, e ele beijava o meu cabelo. Não era como um sonho, era igualzinho à realidade, era a nossa realidade, deliciosa realidade.

**********

Então, já sabem, né?

continua….

***********
Escrevendo agora, eu vi que naqueles dez segundos, eu aprendi a ser feliz sem barreiras, sem censurar as atitudes, sem tentar reprimir o que eu sou.

Eu estou muito abalada pra continuar escrevendo hoje. Perdoem-me, perdoem-me. Amanhã eu volto e conto sobre a padaria e a banheira…Botar tudo por escrito me deixou muito emocionada, estou trêmula e chorando muito, eu preciso ligar agora pro Artista e ouvir a voz dele.

P.S.: Além do mais, hoje, 19 de janeiro, faz um ano e seis meses que eu o conheci, em Cuiabá.
P.P.S.: Parabéns pra nós dois.
P.P.P.S.: Parabéns aos que tem coragem de vencer fronteiras e fazem valer os sentimentos!

quinta-feira, 19 / janeiro / 2006 at 2:33 pm Deixe um comentário

Interrompendo Brasília só pra desabafar rapidinho

Bem, esse post vai ser deletado assim que a raiva passar.

Sabe quando você ama muito, muito muito mesmo, uma pessoa?

E quando você vê que essa pessoa que você ama muito está andando com gentinha? Gentinha, da pior espécie, gente burra, metida a besta, tapada, venal, superficial, fútil, preconceituosa, de mau-gosto, cafona, idiota, burra mais uma vez, sem talento, sem brilho, quiçá sem um dos hemisférios cerebrais, sem noção do espaço que ocupa, sem semancol, sem cultura geral (“Tv do Plim-PLim? É um modelo novo?” SIM, SIM, SIM, EU TIVE DE ESCUTAR ISSO!Um símbolo conhecido quase que de forma inata, que TODO MUNDO SABE O QUE É, a gentinha não sabe), sem um pingo de noção do perigo, insinuando que eu sou “pseudo-qualquercoisa-óide”, talvez por saber o que significa Plim-Plim, ou que Colônia é uma cidade alemã, ou que a malária é uma doença pouco pesquisada por ser doença de país pobre, ou por eu usar óculos, ou por eu SABER que verbos da primeira conjugação, no futuro do presente, têm desinência ÃO (“Pedrinho e Paulinho estaram(SIC) em Manaus no mês de agosto.” SIM, SIM, SIM.). Pela segunda vez, as gentinhas (gentinha vem em bando) me defenestraram, na frente que uma pessoa que eu amo muito, muito, muito.

Eu pensei em sentir pena da pessoa que eu amo muito. Eu pensei em sentir pena do desagradável trio de gentinhas.

Mas eu não acho que Pena seja algo negativo de se sentir. Pena demonstra que você se compadece da tristeza do outro.

Dessas gentinhas, eu tenho é nojo. Muito nojo.

E uma coisa me entristeceu: ver que o amor que eu sentia sofreu um forte abalo, quando a pessoa concordou em me chamar de “pseudo-qualquercoisa-óide”. E riu, como se fosse um texto do Pedro Bloch.

Ver o respeito ir pelo ralo é muito, muito triste.

Eu falei que ia deletar quando a raiva passasse…Mas aí pensei: se eu deletar, quem comentou vai perder seu comentário, não?

Então, o post fica aí mesmo. Riscado, pra deixar bem claro que minha raiva passou. Eu estou feliz porque fiz amigos novos, tomei chuva grossa, visitei o Teatro Amazonas com guia, a mamãe fez salada de frutas (e ao invés de leite condensado, botou champanha, ficou ÓTIMA!), participei de uma oficina de teatro, tive conversas ótimas pelo msn, meu médico disse que estou saudável.

Estou feliz pois decidi tocar adiante, sendo ou não pseudo-qualquercoisa. Pois, se eu for isso mesmo, quem tem que achar errado e corrigir sou eu, ninguém mais.

E, a todos os que comentaram, obrigada. Cada um me ensinou mais um pouco, e aprender SEMPRE vale a pena.

Estou mesmo feliz, a raiva passou. Beijo grande a todos, amanhã tem mais Brasília.

domingo, 15 / janeiro / 2006 at 3:45 am Deixe um comentário

Brasília, o avião, a padaria e a banheira

Brasília.

Eu e ele, no dia do descobrimento do Brasil, fugindo da UNB, pra ir pra um bairro cujo nome era Setor de Motéis. Brasília, uma cidade extremamente organizada, tinha Setor de Autarquias, Setor de Clubes…e Setor de Motéis.

Sentamos na frente do alojamento para esperar o primeiro dos dois ônibus que teríamos de pegar. Comecei a ficar neurótica:

– Artista, já pensou como deve ser o Setor de Motéis?
– Ruas e mais ruas cheias de motéis. Aquelas placas de Neon: “Pousada Coração Valente”, “Motel Le Xanadu”, “Strangers in the night Hotel Cassino Piano Bar”…
– E um do lado do outro, que nem loja do Centro de Manaus.
– E os porteiros batendo palma, do lado de fora: “Espelho no teto, hidromassagem, água quente, só vinte reais duas horas!” “Se entrarem três pessoas, só duas pagam!”
– Hahahahaha…Putz, será que TODOS os casais de Brasília vão pra esse bairro?

Pegamos o primeiro ônibus. Sentamos. Eu encostei minha cabeça no ombro dele, ele passou o braço ao redor. A gente se olhou, e eu disse:

– A gente é TÃO normal. Um casal normal, sabe? Ninguém nesse ônibus faz idéia de que nós dois..moramos separados pelo rio e a floresta, e quilômetros, e falta de estradas, e…
– Eu sei. (Ele me abraçou e beijou minha nuca.) Somos dois namorados, andando de ônibus.
– …e indo pro setor de motéis! hahahaha!
– hahahaha!

***************

Chegando à Rodoviária do Plano Piloto (que nada mais é que um tremendo Teminal), eu tenho um ataque de leseira. A impressão que tenho é que, ao perguntarmos onde fica o Núcleo Bandeirante, toda Brasília vai olhar pra mim e saber o que eu estou querendo…ahn…fazer.

– Artista?
– Fala, meu amor.
– Pergunta aí… Tô com vergonha.
– E se a gente escolhesse um casal com cara de que tá a fim e seguisse? O ônibus que eles pegassem, era o nosso!
– Tá doido?
– hehehe, vou perguntar pro guardinhhhhhhhhhhha. (Ele é paraense, imaginem o nh paraense.) Seu guarda, qual ônibus a gente pega pra ir pro Set…Nücleo Bandeirante, ou Samambaia?
– Ah, aquele ali, ó.

O guarda, normalíssimo.

– Artista, acho que todo casal novato pergunta isso pra ele!
– Repara, Menin@: tem dois casais na fila.
– Eu sabia!

Fila, espera de ônibus, até que ele chega, uma plaquinha na frente: N. Bandeirantes.

Subimos apressadamente, eu MORRENDO DE VERGONHA. Parecia que eu estava pegando Condução Escolar…para maiores.

Cobrador: – Falta dinheiro, aqui.
Artista: – A passagem é um e vinte, não?
Cobrador: Pra esse aqui, é dois e dez.

Menin@ pensando: Será que é porque vai pro Setor de Motéis? Comissão?

Artista: Porquê?
Cobrador: Porque sai do Plano Piloto.
Casal-Interestadual: Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh, bom… (risadas)

Acho que o cobrador não entendeu.

***************

Sentadinhos, de mãos dadas. Na cadeira mais próxima do cobrador.

– Menin@, agora temos um problema.
– ? (Quem me conhece sabe que eu sei fazer CARA de ponto de interrogação.)
– Para onde vamos?
– Ué, pro Set…Núcleo Bandeirante.
– Sim, e chegando lá? Pra qual mot…estabelecimento nós vamos?
– …
– E se a gente perguntasse do cobrador? (levantando)
– TÁ DOIDO? (puxando de volta)
– Mas é sério, pensa: a gente não conhece nada. Telefone, a gente não tem, e se tivesse, ia ligar pra quem? Pro Poeta Matemático?
– NUNCA! Eu ia morrer! Justo ele?
– Porquê?
– Porque eu prometi pra ele que vinha pra participar do EVENTO…e não, fazer um evento particular, com você.
– Mas eu nem sabia se vinha. Foi de última hora!
– Mas eu prometi.
– Bem…TODO MUNDO vai sacar que a gente fugiu, hehehe, mas a gente pode fazer de conta que não entendeu!
– Hahaha, é isso. Pergunta então pro cobrador em qual parada a gente desce.

Artista: – Senhor, pra ir pro núcleo bandeirante, onde nós descemos?
Cobrador – Óia, vai andar MUITO ainda. Depois que passar o Ponto de Referência Snevels, vocês descem e entram à esquerda.
Menin@ – E quanto tempo leva pra chegar lá?
Cobrador – Ah, uns TRINTA MINUTOS. Quando tiver perto, eu aviso vocês.

Eu murchei. Já eram dez da manhã, mais meia hora, mais procurar o estabelecimento, onze, e a gente só tinha até duas horas pra voltar pra UNB! O almoço ia dançar.

Artista – Não vamos poder almoçar.
Menin@ – É…
Artista – E precisa? (sorriso)

De novo, meu coração tropeçou e caiu de joelhos na frente daquele sorriso.

******
Trinta minutos.

Menin@-prodígio avista o Ponto de Referência Snevels, mas passou muito rápido.
Artista confia no cobrador, e diz que ele vai avisar quando chegar a parada.
Menin@-Prodígio lê na placa: Núcleo Bandeirante à esquerda…

O Ônibus continua em frente…Menin@-prodígio sente o chamado da intuição e desce correndo, seguida por Artista.

Quando os dois já estão na calçada, o cobrador bota o corpo pra fora e diz:

Cobrador: – Vocês descem aqui!

Menin@ e Artista percebem que podem estar perdidos…

***********

e porque o título do post?

Continua…em breve.

sábado, 14 / janeiro / 2006 at 12:07 am Deixe um comentário

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Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir. Gibran Khalil Gibran