Archive for janeiro, 2006

Brasília: o avião, a padaria e a banheira (Parte três)

E depois de ser abençoada por um avião, qual a primeira coisa em que a pessoa pensa?

Menin@ – Mas sim, a gente anda, anda, e só tem CASA…
Artista – A gente pode perguntar mais ali à frente, se você não ficar morrendo de vergonha…
Menin@ – Ali tem duas padarias, a gente pergunta lá. Qual das duas? OLHA, aquela padaria ali vende açaí!
Artista – Será que é açaí de verdade ou POWER açaí, com granola e banana?
Menin@ – Argh, sacrilégio fazer isso com açaí.

Entramos na padaria.

Artista – Oi, o açaí de vocês é normal? *risadas*
Balconista – Como?
Menin@ – A gente queria saber se ele vem com aquelas gororobas. *risadas*
Balconista – Ele vem congelado em sacos de um litro.
Dono – O nosso açaí e original do Pará, um amigo meu manda de lá.
Artista – Mas que coisa fantástica! Eu sou do Pará, como o seu açaí! *risadas*
Dono – Estão a passeio? Lua-de-mel?

Nos entreolhamos, meio sem jeito. Notava-se tanto assim?

Menin@ – Não, eu sou de Manaus…estamos participando de um congresso de estudantes.
Artista – Estamos na UNB, sabe a UNB?
Menin@ – Estávamos passeando, e vimos a faixa vendendo açaí, e pensamos: ora, nós somos do Norte, o açaí também, vamos entrar!
Artista – E precisamos de uma informação. Vocês sabem onde é que nós encontramos um…
Menin@ – …lugar pra almoçar? É que nós andamos muito a manhã inteira.(Ele me olhou com cara de bronca.) Qualé, vai dizer que você não tá com fome?
Artista – Várias fomes…
Menin@ – (Vermelha que nem urucum) Er…ahn…Pois é, onde vende almoço aqui por perto?
Dono – Olha, restaurante aqui perto não tem não. Mas vocês podem ir lá pra Rua-de-Cinco-Pistas, pegar o Ônibus Fulano de Tal e descer no…
Casal-Interestadual – NÃO!

*Dono e Balconista com cara de espanto. Outros dois balconistas vieram lá de dentro, ver o que tava acontecendo.*

Menin@ – Olha, não tem açaí pronto, aí? Ia ser engraçado, nós dois virmos do Norte pra almoçar açaí no Planalto Central, né?
Balconista *desconfiada* – Só tem açaí congelado, em sacos de um litro.
Menin@ – Então a gente pode comer algo aqui mesmo! Por exemplo, *apontando a primeira coisa que viu na vitrine* esse bolo com cobertura de chocolate! Quanto é a fatia?
Balconista – Um real. É de cenoura.
Menin@ – Olha que perfeito! Praticamente uma salada! Me dá UMA fatia.
Balconista – *desconfiada* Pra vocês dois almoçarem?
Artista – *disfarçando* Depois a gente escolhe outra coisa…

*Balconista dando um retângulo de bolo pra mim*

Gente, não sei direito, eu estava com fome, mas aquele foi um dos bolos mais gostosos que eu já comi. Era bem laranja, com pedacinhos de cenoura, e a cobertura de chocolate era uma casquinha, como aquelas de picolé skimo.
Arregalei os olhos de surpresa e prazer. O Artista também aprovou.

Menin@ – Me dá mais três fatias? Embrulha duas pra viagem e a outra ele come aqui mesmo. Mas que delícia de bolo!
Artista – Vou ver se quero mais alguma coisa.

Ele foi zanzar, e eu saí da padaria pra olhar a rua. Olhei de um lado, casas e casas. Olhei do outro, e, duas casas depois da padaria, um luminoso de neon! HOTEL CACIQUE.

Pensamento: “Obrigada, papai do céu.”

O Artista tinha comprado mais alguma coisa – que eu não consigo lembrar se era pão de queijo ou refrigerante, mas podia também ter sido pizza – e estava encantando a todos os funcionários da padaria com seu bom humor e inteligência.

Tá bom, tá bom, ele só tava fazendo piadas sobre o POWER-Açaí. Mas os balconistas e o dono estavam adorando.

Artista – …e aí eu olhei pra placa: temos açaí com granola, açaí com sucrilhos, açaí com banana…E eu pensei: se esse doido fosse vender açaí com banana em Belém, ia ser multado pela vigilância sanitária!
Balconistas (Todas eram mulheres, eu lembro direitinho, hunf) Hahahaha…Por quê?
Menin@ – Porque em Belém, açaí é considerado uma fruta que não combina com outras coisas, por ser indigesto. Por exemplo: manga com leite, melancia com feijão, repolho com ovo. Se você toma açaí, deve evitar comer coisas pesadas, como banana, pão, melancia. E tomar um golinho d’água lavando o fundo copo ou da tigela em que você tomou o açaí, pra evitar azia.
Balconistas – ahhhhhhhhhhhhhh….
Menin@ – Bem, então, muito obrigada por tudo, a cidade de vocês é LINDA, estou apaixonada.
Artista – Ah, vocês sabem informar…
Menin@ – *beliscão no braço dele*
Artista – …nada, deixa pra lá.
Saímos da padaria com muitos risos e piadas.

Fora da padaria:Artista – Sim, e qual o seu plano?
Menin@ – *O segurando pelo ombros e girando pra enxergar a placa*
Artista – Mas sim, o que é….ahhh, CACIQUE? Só pode ser um sinal!
Menin@ – Que nem a padaria do açaí. Estamos muito sortudos, nós dois.Artista – Na cidade em forma de um avião, um avião passa sobre nós dois, encontramos açaí do Pará e um Cacique feito de neon. Se eu fosse superticioso, eu diria que este momento é pra ser vivivo intensamente…
Menin@ – Nem precisa ser superticioso… Acho que encontramos.
Artista – E você nem precisou perguntar na padaria, né? (Sorriso)Vergonha de perguntar pro Poeta, de telefonar pra perguntar, de pedir informação do cobrador, de pegar o Ônibus que vinha pro Setor de Motéis… Mas você é muito envergonhada…Que boba, ficar com vergonha. Ninguém aqui te conhece, você não vai ficar devendo nada pra ninguém.
Menin@ – Ahn…Não sei, não é fácil.

Entrando no Hotel Cacique.

Artista – Oi, vocês têm um quarto?
Atendente – Pra casal?

*Tremenda vontade de rir*

Artista – É, pra nós.
Atendente – (Fazendo cara de “Ih, não tem mala? Saquei tudo…”) Doze horas são noventa reais.

FACADA!

Menin@ – Mas sim, nós só vamos ficar três horas, pois às duas temos de estar na UNB. (Sorrindo feliz) Quanto você faz?
Atendente – Senhora, eu posso deixar por sessenta reais…
Menin@ – Tá. (Sorrindo e fazendo beicinho) E pra mim, que sou sua amiga? Por quanto você deixa?

Atendente e Artista rindo.

Atendente – (Ainda rindo, jogando duas chaves no balcão) Esse é quarenta, esse é quarenta e cinco.
Menin@ – (Rindo também) Pego a de quarenta e cinco, que eu sei muito bem pra quem vão esses cinco reais…

Peguei a chave com a mão direita, puxei o Artista com a esquerda, e subi a escada.

Quando chegamos na porta do quarto, olhei pra ele e comecei a rir. Ele me olhava como se olha pra uma berinjela vestida com a roupa do Chacrinha.

Artista – Mas sim, me explica, pra onde foi a vergonha?
Menin@ – Perdi, foi pro beleléu. Não há mais TEMPO de ter vergonha…

Mais uma vez, o meu coração caiu de joelhos com aquele sorriso lindo e franco.

Entreguei a chave pra que ele abrisse a porta.
Entramos.

*************************************
continua…

domingo, 29 / janeiro / 2006 at 1:35 am 1 comentário

Morena de Cabelos da cor do Rio Negro

Eu amo as casas antigas restauradas, eu amo as bancas de café da manhã que vendem tapioquinha, café com leite e pão com tucumã, eu amo peixe com molho de camarão, eu amo ir em aniversários e encontrar vatapá com maionese e arroz, eu amo show de graça de terça a domingo, eu amo peça teatral de graça, ópera de graça, palhaços na Praça, ruas largas, distâncias compridas, trabalhar de sandália de dedo, motoqueiros andando de regata, músicas que falam sobre barcos, rios, peixes e amores, cantores que você encontra nas baladas, cd’s originais a menos de dez reais, uma Universidade que fica dentro de uma reserva florestal, barraca de banana frita na esquina, Sol ardente às nove e chuva torrencial às nove e meia, açaí com farinha de tapioca, pirarucu de casaca, costela de tambaqui, toada de boi-bumbá, discutir sobre Garantido e Caprichoso, Carnaval que termina com cinco escolas empatadas em primeiro lugar…

Gente, eu amo tanto Manaus que vocês nem imaginam.

Nota: reparem no Encontro das Águas, abaixo, à esquerda. Repararam? É mais lindo ainda de perto, viu?

quinta-feira, 26 / janeiro / 2006 at 3:13 pm 2 comentários

Meus grandes amores.

O Teatro Amazonas.

Porque ele é lindo, porque ele é chique, porque eu entrei nele com oito anos pra assistir um balé e me apaixonei pelo teto do teatro.

Coisa linda da mamãe...

A cúpula do Teatro…

Porque ela é GUEI, MUITO GUEI, porque ela é diferente de qualquer coisa que eu já tenha visto, e porque quando eu era menor, sonhei que entrava num elevador secreto e chegava nela.

Ano passado, eu consegui chegar lá, depois de revirar cada canto mal-assombrado do Teatro.

E lá é o céu. É o céu, nao tem outra palavra.
Melhor que estar no céu é levar junto quem você ama.

Eu já estive nessa parte azul e vermelha.

o Congresso Nacional…

Porque ele é diferente, reto e curvo, com aqueles dois pratos, na ponta no nariz do Avião-Brasília.

E outro motivo que eu só notei na aula de Administração Financeira Pública:

é lá que é a casa do povo. Eu sei, aqueles representantes são o fim da picada, e tudo…Mas o Congresso é o povo, decidindo o país através de seus representantes eleitos.

Gente, isso é muito bonito, muito mesmo. Eu queria que a democracia funcionasse como nos livros de Financeira Pública.

E eu, intuitivamente, sabia que aquele prédio era bem mais que dois pirulitos e dois pratos…

Foto batida por MIM!

A mata da UFAM (a pedido de Cláudia)

Eu estudo a, ó!

Meus GRANDES amores…

quarta-feira, 25 / janeiro / 2006 at 2:45 am 1 comentário

Onde estará?

Estou muito triste, de uma tristeza meio grudenta. Já tentei lavar com água e sabonete, mas ela não estava na pele.

Tentei beber leite com canela, mas ela não estava na boca.

Vesti meu vestido azul, mas não era no corpo que ela estava.

Agora, eu me esforço pra dissolvê-la usando água salgada. Talvez ela esteja nos olhos.

quarta-feira, 25 / janeiro / 2006 at 2:00 am Deixe um comentário

One day, I’ll go dancing on the moon…

Só pra constar: a mamãe estava vendo MTV (ela detesta MTV), e começou a passar o clipe de Someday We’ll Know, e eu fiquei tristetristetriste.

“Someday we’ll know
Why love can’t move a mountain?”

Um dia, né?

E hoje eu tava pensando: este ano eu ainda não o vi.

Eu e ele estávamos pelo msn somando quanto tempo passamos JUNTOS, no sentido dicionárico da coisa.

Somando os dias em que estávamos na mesma cidade,ao mesmo tempo, dá um mês, uma semana e um dia.

“Why ain’t you here with me
TONIGHT?”

******************

Pra onde eu tô indo? Onde eu vou chegar? Quanto tempo vai levar?

“I’ve bought a ticket to end of the rainbow…”

E o que virá depois?

******************

“Why Sanson loves Dalilah?”

quarta-feira, 25 / janeiro / 2006 at 1:41 am Deixe um comentário

Espera

Última aula… Junta os papéis em cima da mesa, os pincéis e os livros… Aquele aluno de sempre vem tirar as dúvidas… Bom, pelo menos ele é interessado, entre tantos que resolvem que estudar na última semana é uma boa estratégia… Ok. Responder, responder…
Abrir a sala… Responder mais perguntas, agora do meu orientando… Sim, amanhã às duas da tarde… É um bom horário, depois da sua aula… E aquela integral? Não saiu? Olha, que tal esse livro? Não, meu querido… Fourier, não Laplace…
Estacionamento… Odeio deixá-la sem carro, mas que posso fazer com o meu costume de sempre acordar quando ela me faz aquele cafuné na cabeça!? Bom, agora quem paga é ela, já que hoje eu tinha que passar prova e não poderia me atrasar… A uma hora dessas ela deve estar dentro do ônibus, pensando o quanto não importa a cidade, sempre os ônibus são lentos e o trânsito não ajuda. Realmente, não importa a cidade…
Ok, carro… Rápido, rápido… Sim, amigo, isso é um carro, não uma charrete… Pode pisar no acelerador… Obrigado…
Trânsito, mais trânsito… Mas tenho que chegar logo. Ok, bairro, rua, essa rua com tantas casas com jardim… Ela que escolheu… Rio ao lembrar da escolha “racional” dela: “Tem jardim! Ótimo! Compramos!”. “Mas filha, você não acha…”. “Ah, você sabe que sempre quis morar numa casa com jardim, né??”
É, eu sei. Para mim um apartamento com samambaia já resolvia o caso, mas como resistir àquele olhar dela?
Estacionar… Sai do carro, abre portão, entra no carro, estaciona, sai do carro, fecha portão… Tudo bem…
Chaves… Ok, a última chave que toca no lado esquerdo do chaveiro… só assim para não se enganar com tantas…
Casa. Ufa… Só quero descansar um pouco… Sofá… Fizemos questão de comprar um parecido com o da mãe dela, que são tão confortáveis. Só um dez minutos de descanso… Como era aquela integral que o aluno me falou?
Tiro o livro, que ela diz que é “Cheio de letrinhas gregas…” Acho uma graça ela tentando entender “as loucuras da minha concorrente”… Ela com as mãos no queixo, me olhando enquanto explico coisas que sei que não são tão simples… Devo confessar que também não entendo nada do trabalho dela, com todas aquelas coisas de gerenciamento de não sei o quê… Mas sim, deixa de viajar em pensamentos e volta à integral…
O barulhinho dela se atrapalhando com as chaves… É sempre o mesmo barulhinho inconfundível… Provavelmente vai reclamar do cadeado e dessa mania de ler com a luz fraca que vem do poste que acabou de acender lá fora… Mas só depois…
“Boa noite”, e aquele sorriso… Ela chega perto e coloca os dedos na minha nuca… Ela sabe o quanto gosto disso…

Deixo o livro cair no chão, e ela deita no meu colo… Mordo o seu queixo e ela me pede “calma”…

Ela sempre acha que dá tempo de chegar ao quarto…

*******************

Sim, foi ele quem escreveu a resposta.

Me digam: esse cara devia ou não ter um blog?

domingo, 22 / janeiro / 2006 at 11:21 pm Deixe um comentário

Chegada

Acaba o dia de trabalho. Tiro o casaco e saio do edifício , desço três andares de escada por impaciência de esperar o elevador chegar. Impaciência.

Tudo parece demorar o dobro do tempo. Enquanto subo a ladeira, penso que sapatos de salto são lindos, mas nem um pouco úteis quando se tem pressa. Anoitecer. O ônibus recusa-se a passar. Quando passa, recusa-se a andar depressa. Todos os sinais ficam vermelhos, e todos os caminhões da cidade estão bloqueando meu caminho. Impaciência.

Após longos minutos de tortura e espera, desço do ônibus. Três quarteirões, só faltam três quarteirões.Impaciência. Toc, toc, toc, toc, vinte e um, vinte dois, vinte toc, vinte quatro, toc toc toc, falta pouco. Anoitecer.

Jardim. Anoitecer. Cadeado – MANIA DE TRANCAR ESSE CADEADO, Ô HOMEM… -, fechar portão e cadeado. Porta, chave…chave errada.Impaciência -Sempre é a última chave que a gente tenta. – Chave certa, abrir a porta…

Você. Penumbra. Você lendo, deitado no sofá, as pernas pra cima.Forçando a vista no escuro. Algum desses livros cheios de letras gregas que você usa pra dar aula. “Boa noite.” Sorrio. Meus dedos na sua nuca, leveza. Seu suspiro. O de sempre.

O livro de letras gregas escorrega. Eu sentada no seu colo. Leveza. Você morde o meu queixo. -Calma…

Não dá tempo de chegar no quarto.Essa sua impaciência.

sábado, 21 / janeiro / 2006 at 10:53 pm 1 comentário

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Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir. Gibran Khalil Gibran