Archive for novembro, 2005

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Eu tenho um grande amigo.

Um grande amigo, mesmo. Aquele com quem eu passava horas pendurada no telefone, fazendo análises do mundo, da moral, de livros e de comportamentos.

Aquele em cuja casa eu entro e todos me conhecem, e eu posso abrir a geladeira pra ver o que tem de bom, e ir passando direto pro quarto pra me jogar na cama.

Aquele que tem a senha do meu blog, haloscan e e-mail.

Aquele pra quem eu tenho vontade de contar tudo de bom que acontece comigo.

Aquele que eu escolho pra desabafar as coisas ruins que acontecem comigo.

Quando nos conhecemos, eu nem podia imaginar que viajaria para Cuiabá. A sintonia foi imediata, e eu lembro que a primeira coisa que disse ao vê-lo foi: “Nossa, como ele é bonito!”

Por um curto período de tempo, nós pensamos (tememos?quisemos?) que houvesse mais do que amizade. Eu temi muito, tinha acabado de sair de um relacionamento cansativo, e disse não. Dois meses depois, conheci Cuiabá, descobri o que é um frio de dez graus…e conheci um Artista que mudou minha vida pra sempre. E o meu amigo (que nunca poderia ser mesmo mais do que amigo) foi o escolhido pra ouvir cada passo das minhas angústias, esperando e-mails chegarem e os meses passarem.

Meu amigo me ensinou mil coisas. Me emprestou livros e revistas em quadrinhos, me mostrou lugares onde se ouve jazz e blues, discutiu comigo por causa de música. Sempre me deixou por último, pra ter mais tempo de se despedir, e quando me deixava em casa, eu nunca conseguia simplesmente subir. Passava mais uma, duas horas conversando com ele, sobre tanta coisa engraçada/triste/inútil/importante, que o tempo corria e logo eram cinco da manhã e eu não estava em casa -estava a vinte metros dela, sem conseguir deixar a conversa tão envolvente.

Meu amigo foi a única pessoa pra quem minha mãe mostrou o trompete do papai.

Meu amigo não cabe na minha casa.

Meu amigo tem um abraço macio, e um cabelo bom de bagunçar.

Meu amigo sempre comenta no meu blog.

Meu amigo nem sabe disso, mas passar uma sexta ou um sábado sem vê-lo fazia o resto da semana perder um pouco do sabor. E eu chorava quando não o via.

E eu comecei a chorar mais vezes ao ver que ele tinha um monte de outras amigas e amigos com quem passar as sextas e sábados. E eu não tinha.

E eu me entristeci ao ver que não era mais a última a ser deixada em casa, e que não havia mais disposição para conversas de duas horas.

E da tristeza, passei para o ciúme, e do ciúme para a rudeza.

E quanto mais rude eu ficava, menos o via.

Pescava trechos de conversas de amigos em comum, onde eu percebia que algo muito novo e muito bom estava acontecendo com ele, e eu não fazia idéia do quê.

Descobri por acidente, quando escrevi sobre viagens, e ele veio me perguntar mais detalhes sobre passagens, estradas e malas. E eu descobri o que estava acontecendo quase que por acaso. E me senti tremendamente desprestigiada por não ter sido escolhida para compartilhar dos acontecimentos.

E novamente o ciúme gerou rudeza. E a minha rudeza gerou chateação no meu amigo.

Não haviam apenas problemas. Houve muitos e muitos momentos encantadores. Mas eu prestava mais atenção aos momentos de dor e deslizes.

E com isso, suponho ter me tornado uma pessoa insuportavelmente rude, chata e possessiva. E quanto mais atenção eu tentava chamar, mais sentia a paciência do meu amigo chegando ao limite.

Eu vivi dias extremamente felizes, e ele pouco soube do que eu estava fazendo. Se fez presente, gentil e apressado, e eu com vontade de conversar com ele durante duas horas. E o tempo, ficando cada vez mais escasso.

E eu vendo o tempo passando.

Bem, novembro termina amanhã. O tempo passou, e eu tive uma longa conversa de bem mais de duas horas com meu amigo. Muita roupa suja lavada, muitas infantilidades minhas trazidas à tona.

Se estamos bem? Não sei dizer.

Passar o Natal sem ele vai ser difícil. Ano passado, ele segurou a barra das minhas saudades e tristezas… E nesse ano?

Bem, neste ano vou ter de me segurar sozinha. Porque ele tem uma longa jornada pela frente. Porque ele vai quebrar muitas barreiras, conhecer lugares novos, muitas pessoas extremamente legais (até o Trotta), fazer algo que ele sempre se propôs: conhecer pessoas através do blog ( eu mesma sou uma).

E eu estou feliz, ora. *sorriso amarelo* Tá, estou feliz por ele, e sem saber como é que vou fazer pra aguentar as sextas e sábados sem ele durante dois meses.

Ô, grande amigo grande, nem tivemos a conversa de duas horas que eu estava querendo há tanto tempo. Mas e daí? Boa viagem, cariño. Eu espero até fevereiro pra gente conversar muito, e você me conta como é o sotaque do pessoal todo.

Se cuida…e me dá licença que eu vou bem ali pegar um lencinho.

terça-feira, 29 / novembro / 2005 at 11:43 pm 1 comentário

Conspiração.

Uma conversa no msn:

Artista diz:
que bom te encontrar de novo…
Artista diz:
na instituição que eu vou tem 1080 alunos…Terei que distribuir 108 questionários
Menina-Prodígio diz:
hum.Um número interessante.
Artista diz:
o que seria um nº desinteressante?
Menina-Prodígio diz:
200, 250, 100
Artista diz:
nºs redondos? Eu gosto deles…
Menina-Prodígio diz:
Mais legal é o 145… 1! 4! 5!
Artista diz:
VIVA O 145!
Menina-Prodígio diz:
eu leio fatorial assim: um! quatro! cinco! E levanto as sobrancelhas fazendo expressão de sustinho…
Artista diz:
quando formos ter um filho, temos que calcular para que ele nasça no 145º dia do ano.Ele tem que nascer no dia 25 de maio
Menina-Prodígio diz:
é um bom dia..
Artista diz:
mas não caiu em um número que não fosse redondo… então não é um número interessante.
Menina-Prodígio diz:
25 não é redondo. É um semicírculo.
Artista diz:
entendo redondo como múltiplos de 5…
Artista diz:
SEMICÍRCULO??
Menina-Prodígio diz:
redondo são com zeros…metade de 10 é cinco.Cinco é um semicírculo…Um semicinco!
Artista diz:
que conversa….
Artista diz:
a gente viaja mesmo
Artista diz:
que legal!
Menina-Prodígio diz:
Muito bem, gafanhoto.
Artista diz:
Sim, mestra Myagi…..
Artista diz:
ou yoda??
Artista diz:
até que tem alguma coisa que lembra os dois…. hehehe
Menina-Prodígio diz:
Eles são primos distantes do mestre dos magos!
Artista diz:
…..olha, há controvérsias…..
Menina-Prodígio diz:
o mestre Ancião também é da família.
Artista diz:
eles são parentes mais distantes ainda do papai smurf….
Menina-Prodígio diz:
O papai smurf eu até entendo.
Menina-Prodígio diz:
Velho, sábio, voz tremidinha…
Artista diz:
Papai Smurf é comunista, isso sim….O único da vila dos smurfs que usa roupa vermelha
Menina-Prodígio diz:
Presta atenção
Menina-Prodígio diz:
quadro de características
Artista diz:
oi.
Menina-Prodígio diz:
Yoda:velhinho, sábio, fodão no que faz, voz tremidinha.
Menina-Prodígio diz:
Senhor myagi:velhinho, sábio, fodão no que faz, voz tremidinha
Menina-Prodígio diz:
Mestre ancião: idem
Menina-Prodígio diz:
Mestre dos Magos: Idem
Menina-Prodígio diz:
Papai Smurf: idem (se bem que eu não sei como ele pode ser fodão no que faz, se não vejo os smurfs fazendo nada…)
Artista diz:
ficam “lutando” contra o gargamel e criam não coragem pra chegar na smurfete
Menina-Prodígio diz:
A smufete não dá bola.Coitada, acho que ela é lésbica e não encontra uma parceira…
Afoga as mágoas dedicando parte integral do seu tempo ao bebê smurf..
Artista diz:
NINGUÉM CHEGA NA SMURFETE!
Menina-Prodígio diz:
O do óculos chega. E sempre leva safanão.
Artista diz:
por falar nisso, de onde aquele bebê surgiu, se lá não tem mulher?
Menina-Prodígio diz:
foi adotado.
Artista diz:
E de onde ele veio? Tem outras vilas de smurfs?
Menina-Prodígio diz:
Ele é pintado de azul!
Menina-Prodígio diz:
Na verdade, é um duende pintado de azul!
Artista diz:
Todos eles são duendes….
Menina-Prodígio diz:
Não, sao smurfs!
Artista diz:
por que nesssa vila não importa se vc é engenheiro ou dorminhoco, vc vai ser tratado do mesmo jeito?Simples:A VILA DOS SMURFS É A ALEGORIA DE UMA SOCIEDADE COMUNISTA
Menina-Prodígio diz:
e o papai smurf é…FIDEL CASTRO!
Artista diz:
O GARGAMEL É O CAPITALISMO, QUE QUER PEGAR TODOS ELES PARA FAZER OURO
Artista diz:
OURO!!
Menina-Prodígio diz:
Meu Deus, como não vimos isso antes?
Artista diz:
NÃO! PAPAI SMURF É…..PASME! KARL MARX
Menina-Prodígio diz:
Não!
Artista diz:
PAPAI SMURF É KARL MARX
Artista diz:
SIM
Menina-Prodígio diz:
O Karl marx é mais velho ainda.
Artista diz:
PAPAI SMURF TEM 550 ANOS!!
Menina-Prodígio diz:
o Karlmarx tem 552, que é um numero interessante.
Artista diz:
O GÊNIO É O TROTSKY, QUE SEMPRE É ESCoRRAÇADO PELA SUA VILA
Menina-Prodígio diz:
e a smurfete?
Artista diz:
A SMURFETE….OLGA??
Menina-Prodígio diz:
É a OLGA
Menina-Prodígio diz:
oooooooooooooohhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Artista diz:
DESCOBRIMOS!!
Menina-Prodígio diz:
Se bem que a smurfete nasceu como Mata Hari.Ela foi criada pelo Gargamel, para ser espiã.
Artista diz:
BOM, QUE SEJA…. MAS MATA HARI ERA UMA TRAPALHONA!não conseguiu espionar nada….Ainda morreu sem concuir missão alguma….
Menina-Prodígio diz:
Mas transou MUUUUUUUUUUUUITO enquanto isso.E ainda ganhava a vida dançando e sendo sexy,
Artista diz:
por isso ficou famosa
Menina-Prodígio diz:
Meu sonho de consumo: ter como única tarefa ser sexy!E RECEBER pra isso…
Artista diz:
bom, James Bond vai pelo mesmo caminho de Mata….Mas como estamos numa sociedade machista, James Bond tem que transar 30 vezes por semana com 29 mulheres diferentes, se divertir com esportes radicais,viajar meio planeta por dia, salvar o mundo,
ter permissão da rainha pra matar…
Menina-Prodígio diz:
Estressante.E não pode amassar o paletó!
Artista diz:
era um Mata Hari de calças!Ou sem calças…hehehe
Artista diz:
bom mesmo é o Poirot…Ele era o investigador e agente de verdade!Dedução, esperteza.
Artista diz:
Meio como Shelock Holmes,mas Sherlock Holmes beirava um pouco demais à intuição pro meu gosto
Menina-Prodígio diz:
Tudo se resolve por mágica ou sorte. Mas na vida da gente muita coisa é assim.
Artista diz:
“A moeda caiu com a cara virada mais pro oeste do que para o leste, bom, como às 12h23 do inverno nessa parte da galícia o vento é sudoeste……QUEM MATOU A MARQUESA FOI O MORDOMO!”
Artista diz:
É, muita coisa…..acho que no início foi assim com nós dois…..
Menina-Prodígio diz:
intuição?
Artista diz:
às vezes….
Artista diz:
não sei, mas nos livros do Sherlock as coisas parecem um pouco demais fantasiosas, para encher os olhos….
Menina-Prodígio diz:
e na vida?
Artista diz:
Na vida….Acho que todas as decisões,todas, têm uma parcela de intuição envolvidas. Em algumas mais, em outras menos
Menina-Prodígio diz:
Falou que nem um administradorzinho.Lindinho.
Artista diz:
NÃÃÃÃÃÃÃOOOO, ADMINISTRADOR NÃO!!!!!!

Artista acabou de pedir a sua atenção!

Artista diz:
mas eu aceito o lindinho…..Hehehe, lindona.
Menina-Prodígio diz:
Não comeeeeeeeeeeeeeça…

****************

Entenderam a razão da minha saudade?

segunda-feira, 28 / novembro / 2005 at 11:13 pm 1 comentário

Obrigada, Marco Antônio Uchôa.

Antes de sair de casa, eu e mamãe sempre assistimos ao programa Mais você, da Ana Maria Braga. Hoje de manhã, o programa estava indo bem, e quando chegou ao finalzinho, a Ana começou a falar com a voz trêmula. Eu e mamãe paramos de conversar pra prestar atenção.

Marco Uchôa morreu. Não confunda com o Marcos Uchôa, aquele da guerra do Kuwait e do Tsunami, que é correspondente em Londres. Foi o Marco Uchôa, que fazia reportagens pro Fantástico.

Marco Uchôa tinha TRINTA E SEIS ANOS. . Fazia reportagens com ênfase no ser humano e nos aspectos sociais do Brasil.

Isso eu já sabia.

O que eu não sabia, e que a Ana Maria falou entre soluços (poucos apresentadores choram tanto quanto ela, mas hoje ela quase perdeu o controle), era que Marco Uchôa fazia matérias sobre pobreza e infância por ter sido, ele mesmo, um menino carente. Vendeu bombom no sinal, saiu do Ceará ainda menino, morou em instituição para menores porque sua mãe não podia cuidar dele. Aos dezessete anos, começou a trabalhar na Folha, sendo um dos repórteres mais jovens de lá. Se formou em Jornalismo, escreveu um livro (Crack – o caminho das pedras) que ganhou o PRÊMIO JABUTI de melhor livro-reportagem.

Eu nem poderia imaginar isso, e fiquei pensando em como deve ter sido difícil pra ele fazer a faculdade, e como ele devia se orgulhar de ter um bom emprego, ser um profissional reconhecido. E comecei a pensar: porque um rapaz tão jovem morreu? Será que foi acidente?

Depois, foram exibidas imagens do Marco Uchôa no meio de um monte de embrulhos de presente. Ele fazia um trabalho de apoio pra uma instituição de menores de rua. Ia lá, fazia as crianças escreverem cartas pedindo seus presentes de Natal, e depois ia em todos os departamentos da rede Globo recolhendo doações. As imagens eram meio ruins, eu suponho que tenha sido brincadeira de algum câmera da Globo, filmando-o enquanto preparava os presentes. As imagens mostravam-no imprimindo cartões (“Jéssica, feliz Natal e que o ano novo seja muito legal”, eu li em um deles), fazendo laços, cortando papel de presente.

Eu comecei a chorar em silêncio. Aquela sensação de “poxa, quem poderia imaginar uma coisa dessas?” Na TV, a Ana Maria Braga quase não conseguia falar. Disse que as pessoas que tiveram o privilégio de ter o Marco Antônio como amigo nunca esquecerão dele. Disse também que, após uma semana no hospital, já sabendo que não ia ficar muito tempo na Terra, Marco pediu que não abandonassem esse trabalho, e deixou como mensagem aquela música gravada pelos Titãs, Epitáfio. Uma das editoras do Fantástico e outra repórter do Globo Esporte darão prosseguimento ao trabalho dele naquela instituição. Nessa hora, foi a mamãe quem começou a chorar.

Mamãe, trêmula, me pediu pra procurar na internet a causa da morte de Marco Uchôa. Descobri que ele faleceu por causa de um tumor maligno e virulento nos ossos, chamado osteossarcoma. Há dois anos, lutava contra a doença, já tendo passado por uma cirurgia. Nos meses mais recentes, o tumor entrou em processo multimetastásico, ou seja, se espalhou para vários outros órgãos, como os pulmões.

Eu estava chorando por ter sido profundamente tocada pelas atitudes daquele rapaz. Estava chorando por reclamar tanto de como as pessoas são chatas e mesquinhas, e perceber que eu havia me coberto com uma capa de cristandade, me considerando uma pessoa “bem boazinha, até”. Estava chorando por ter decidido que não dá mais. Não dá mais pra eu querer e ficar só nisso. Chega uma hora em que você precisa queimar os navios, e não deixar rota de fuga, não permitir que os hábitos antigos e inadequados voltem a fazer parte da sua vida.

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Liguei pra mamãe do trabalho:

– Mãe, encontrei. O Marco Uchôa morreu de câncer no osso da perna.
– Prodígio…
– Hum?
– Eu vou contigo na ação de Natal.
– Oh, mãe…

A ação de Natal está sendo organizada pelo pessoal da Faculdade. Vai ser numa comunidade bem carente MESMO daqui de Manaus (Bairro Grande Vitória). Vai ser no dia 24 de dezembro, de manhã e à tarde. Ela estava tentando me demover de participar…

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Não conheci o Marco Uchôa pessoalmente, mas sei que agora a sua dor já passou. Espero que as dificuldades vividas por ele tenham zerado a cota dele, e que daqui em diante ele cresça constantemente em sabedoria e bondade. E, enquanto escrevo esse texto, espero que minhas vibrações de gratidão cheguem à ele. Que ele saiba que sua vida (não o fim dela) fez algo fazer clique dentro de mim, e da minha mãe também. Que eu consiga também diminuir um pouco a solidão de alguém. Que neste Natal, as luzes acesas não sejam somente as decorativas, das quais eu gosto tanto.

quinta-feira, 24 / novembro / 2005 at 10:08 pm 9 comentários

Post Scriptum.

Eu e mamãe recebemos um convite pra rever antigos vizinhos, muito queridos.
Mamãe e eu nos arrumando. Ela, tentando lembrar dos nomes corretos de cada um:

-Qual o nome da irmã da Rosa, nossa ex-vizinha? Era com R também…
-Rosana? Rosany? Rosane? Rosicler?
-Não….Era com Rô, tenho certeza…
-Huuuuuuuuuuuuuum…(penso penso penso) Roubalheira. Rotavírus. Rodasol….
– Roupinol!
– HAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAH!
– Rodamundo, rodagigante, rodamoinho, rodapião…
– O tempo rodou num instante…
-….Nas voltas do meu coração!

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Esclarecimentos sobre a greve

Eu não consigo escrever. Não consigo.
Obrigada pela preocupação demonstrada. Estou bem, estou bem. A saudade do meu garotinho já vai passar, pois em dezembro vou pra Belém (yey!) e terei chance de vê-lo.
O grande dilema é : quando eu escrevo sobre ele, machuca demais, por lembrar de tanta felicidade. Quando eu escrevo sobre não-ele, o texto não diz nada. Não fala sobre mim. Fica frio. Inexpressivo. Ruim. Se fosse de papel, eu rasgava. Como é de computador, eu deleto e depois recupero, arrependida de ter deletado.

Rasgar é bem mais relaxante que deletar. Rasgar requer força física, violência, emoções negativas sendo gastas. Deletar é apertar uma tecla. Deletar é leve, é educado. É contido. Nem o barulho é empolgante. O barulho do papel sendo rasgado é constante, ritmado, traz alívio. O barulho da tecla é fugaz, mecânico, desprezível.

Ando com saudade da caneta no papel. De ver minha letrinha redonda de criança de quarta série. Tinta azul, folha pautada de azul claro. Textura, algo físico, algo que dá pra abraçar se for muito bom, rasgar se for muito ruim, amassar e pisar em cima. Preciso de papel.

Escrever cartas. Eu devia escrever cartas. Cartas escritas à mão são mais demoradas, mas são uma prova de dedicação. Têm o cheiro da pessoa ali. Têm os vincos da caneta, feitos pela força dos dedos. Têm o cheiro, da mão deslizando segurando a caneta. Têm o tempo, em que a pessoa parou de fazer as outras coisas que a vida pede. Ver TV, pagar conta, comer uva, transar ferozmente até quebrar todas as ripas do estrado, ela podia estar fazendo tudo isso, mas tirou um tempo e escreveu pra você. Enquanto escrevia, pensou em você. Em falar coisas pra você.

Coisa bonita que é uma carta. Tanto calor, tanta intimidade, tantos protocolos invisíveis (cidade, dia de mês de ano. Querido destinatário: comigo está tudo bem, e você?, gostaria de dizer que, foi tão legal, como seria bom que você estivesse lá também, finalizando gostaria de dizer, volto a escrever mais vezes, aguardo sua resposta com ansiedade, beijos e abraços, Remetente).

E os pê-esses. P.S….Post-scriptum. Aquilo que é escrito depois do escrito. A carta devia ter acabado, mas você volta com mais uma lembrança, mais um beijo, mais uma vez a caneta corre, pois o texto normal não contém você inteiro, e sempre há chance de dar mais pedacinho de si. E você continua, P.S.: diga a alguém que pensei nele, P.S.: Vou resolver o que você me pediu, P.S.: veja no jornal a minha foto.

Os pê-esses são pequenas provas de amor que ficam no fim da declaração de amor que é a carta, mesmo sendo uma carta de notícias, de amigos, de receitas. Os pê-esses são os escritos que vêm após o que já foi escrito, como se já não bastasse tanta entrega, tanta atenção dada ao fazer da carta, e você continua um pouco mais. Como aquele que se afasta e vira pra dar mais um sorriso, o pê-esse faz a despedida ser mais suave. Sim, está acabando, mas eu não quero que acabe, vamos findando aos poucos.

E quando o pê-esse acaba, e ainda tem mais de você pra colocar na carta, você faz o post-post-scriptum. P.P.S. Pê-pê-esse. Coisa mais linda, é praticamente um bombom com duas castanhas dentro. Mais um pedaço de amor, “me deixe ficar mais um pouco com você, pois essa despedida não é da minha vontade, foi esse dia malvado que inventou de ter só 24 horas, e me deixar sem tempo de te escrever”.

Preciso escrever cartas de papel, cheias de pê-esses no final, repletas de quem eu sou e de quem eu quero ser. E vou. E vou.

Beijo grande,

Menina-Prodígio

P.S.: Obrigada aos que se preocuparam com a greve. Que coisa gostosa saber que tem gente que fica se perguntando onde você foi parar.
P.P.S.: Eu não acredito que escrevi tanto. Se vocês tivessem idéia do bloqueio que a tela de edição do Blogger me dava…Eu logava, olhava o cursor piscando e dava alt+f4.
P.P.S.: Escrever liberta. Escrever é tirar a roupa. Escrever na internet é tirar a roupa em cadeia mundial de televisão.
P.P.P.S.: Já falei que vou pra Belém ver o meu namorado? Estou FELIZ.
P.P.P.P.S.:Como esse blog me faz bem. Como vocês me fazem bem.
P.P.P.P.P.S.: A greve acabou. 🙂

terça-feira, 15 / novembro / 2005 at 4:18 pm Deixe um comentário

GREVE

corre-corre, zum-zum-zum, teleco-teleco e oba-lá-lá.

Na porta do apartamento, fotógrafos, jornalistas, câmeras, estagiários colocando paletó e gravata, enquanto da cintura pra baixo estavam de calças jeans rasgada. Os vizinhos corriam, as crianças se enfiavam por baixo das pernas dos outros pra saber das notícias e enviavam mensagens pros celulares das mães, que pudessem passar embaixo das pernas alheias passariam sem pestanejar.

****************

“Que diabos aconteceu, pois a mocinha não sempre foi calada e quieta?” “Usava mangas três quartos mesmo em dia de sol, e às vezes botava uns decotes em dia de chuva.” “Durante a semana, esquecia de pentear o cabelo e embolava ele com um lápis, mas no fim de semana passava creme e ficava sentada no computador de touquinha prateada – bem do lado da janela, pra todo mundo ver que ela tava de touca, pessoal exibido.”

Sempre foi quieta, mas os meninos do bloco da frente disseram que às vezes ela botava o computador pra tocar umas músicas esquisitas e ficava pulando e rodando pela casa. “Que música?” Ninguém sabe, ela nunca foi de aumentar o volume.Uma vez só, colocou o volume no máximo, e ficou cantando junto que nem uma possessa, mas era tango – e você já viu alguém escutar tango? Tango é coisa que toca em filme, a gente não fica ouvindo em casa. Ficava cantando uma enrolação de “der de quê cê fuê nunca más volvió”…mas foi só uma vez. Em casa a gente ouve rádio, ou então os meninos escutam os cd´s deles, desses tatuados cheios de furos. Não, o cd não é furado, é o cantor que é. A mãe dela todo mundo conhece e gosta, não é a dona que vende Avon? E vende barato, menino, coisa que aquela perua da rua de baixo vende a trinta reais a dona vende por treze. Coisa esquisita é que a mocinha não passa maquiagem pra trabalhar. A mãe sai cheirosa, de bolsa e salto e batom e perfume e farda, e a menina sai de sandália e lápis no cabelo e jeans e as blusas de manga três quartos dela, uma mochila verde pavorosa, a cara pálida que daqui da minha janela a gente só vê as sobrancelhas, grossas que parecem desenhadas com carvão. Elas descem a escada de braço dado, e a gente ouve elas descendo -polóc-polóc-polóc – todo dia, mesmo horário.

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Um grito sai do apartamento, e todos os microfones se esforçam para captar algo, qualquer coisa.

– NÃO ENCONTRO! NÃO ENCONTRO!

“O quê? O quê?” Todos querem saber, as crianças correm para as casas, fazendo o relatório: “ela disse que não encontra!” O quê, menino? “Não sei, só disse que não encontra.”

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Ora, vá olhar melhor e trazer informação que preste! E essa agora, o que ela pode querer encontrar? Será que esse escarcéu todo é porque perdeu uma bobagem? Sei lá o que isso pode ser. Parece ser tão quietinha, e agora um negócio desse, né? Se bem que quietinha, ela não era não, viu? Quase todo fim de semana, ela sai e só volta depois das quatro da manhã. E depois que chega, não vai direto pra casa, fica uma hora, duas horas conversando e rindo, estacionada bem embaixo da minha janela. Deus me livre espionar a vida dos outros, mas é no mínimo esquisito, uma moça e um rapaz ficarem sozinhos num estacionamento, alta madrugada. Ainda mais sendo homem bonito. Eu sei porque os meus meninos viram, estavam lá embaixo e viram, ele e ela com os pés fora da janela, falando sobre sei-lá-quê de pontocom, meus meninos não são de bisbilhotar não, mas se ela chega às quatro da manhã e só sobe às cinco e meia, a gente estranha, não é mesmo?
E mesmo chegando nesses horários, sábado e domingo de manhã ela sai cedinho, e volta meio dia, eu vejo porque estou acendendo a churrasqueira e ela passa, fala bom dia e vai andando, sobe a escada dando pulinhos e anda rodando, e desde quando gente normal anda e roda, gente? Ela anda, dá um pulinho, roda num pé só e continua andando, falando sozinha umas coisas que ninguém entende.

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De dentro do apartamento, risadas altas. Duas mulheres rindo muito, de algo que deve ser muito engraçado. Os jornalistas anotam em seus bloquinhos. Um dos estagiários olha no relógio e estranha – não está na hora do Zorra Total…nem da propaganda política. Pra quê tanta gargalhada?

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Às vezes ela sai com a mãe, e as duas sempre de braço dado, e descem a escada – polóc-polóc-polóc – e ficam brincando de basquete com o saco de lixo. Quando erram, ficam rindo rindo rindo, duas lavadeiras dando risada, de fechar os olhos e tudo. A mocinha nunca quis jogar vôlei com os outros jovens daqui, fica olhando da sacada, com uma carinha de quem nem tá olhando o jogo, tá olhando pro céu ou pra outro lugar, mas ela tem vinte anos, só pode estar olhando pro jogo e pros meninos.
E misericórdia, às vezes ela fica andando sem roupa pela casa, ou então só de camisa Hering, vê se pode tanta indecência. E a gente só não vê mais indecência porque as duas encheram a casa de cortina, pura safadeza, gente de bem não precisa botar cortina em casa porque não fica andando sem roupa.

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A mocinha abre a porta do apartamento. Todos os jornalistas se esticam na tentativa de ver, ouvir, entender o porque da greve declarada por alguém tão normal e tão cheia de ritualísticas misteriosas.

– O que vocês querem? Tudo isso é por causa da greve?

Estouro de flashs.

– Pois avisem pra quem puder que a greve começou, e vai continuar até quando me der na telha. Enquanto isso, eu só escuto Pedaço de Mim, só leio Leminski e não posto no blog. Tudo bem?
– Mas qual o motivo da greve?

Ela para e olha pra longe por uns segundos.

– Eu quero dançar. E o meu partner de dança tá muito longe.
– Porque a senhorita não dança sozinha então?
– Ninguém dança tango sozinho. E se vocês, jornalistas,não têm sensibilidade pra entender uma metáfora, deviam tentar outra carreira.
– Mas não seria possível dar mais esclarec…
– Saudade dói, senhor fotógrafo. Dói tanto que eu não consigo escrever. Se melhorar, eu volto. Se não, já sabe: Buarque, Leminski e greve.

segunda-feira, 14 / novembro / 2005 at 12:23 pm Deixe um comentário

Fazendo Carne de Sol (porque jabá é coisa de cearense, maninho)

Certo. Certo. Nesse mundo de internet, se estabelecem alguns clássicos, aqueles endereços que muita gente conhece, muita gente visita, muita gente aprecia, muita gente linca(com c, porque K é koisa de miguxo) e muita gente LÊ. Porque a base da internet é texto, e o resto é brinde e perfumaria.

Então, tive a idéia de fazer uma boa enquete (fale rápido: boa enquete boa enquete boaenquete) sobre quais são os crássicos dos meus leitores queridos amados e internet addicteds.

(Conceitos de crássico: site ao qual você sempre vai, às vezes até mais de uma vez por dia; site que muitas outras pessoas-internautas também frequentam; site que muda os rumos da civilização ocidental, cria novos conceitos de vida e mundo, define qual será a moda da próxima estação, ou, sendo mais modesta, site que te dá aquele gancho pra comentar com seus colegas: “ei, sabe o que eu li na internet?”)

Começo dizendo meus crássicos, e você dizem os de vocês (quem tem blog, pode dizer no seu blog, quem não tem, pode dizer aqui na minha caixinha verde-amarela, eu sou generosa e deixo, hohohohoho):

Crássico 1 – Pensar Enlouquece, pense nisso. CRAAAAAARO, maninho. Porque o Inagaki é o Inagaki, porque o Inagaki sabe tudo de músicas esquisitas, porque o Inagaki faz posts longos cheios de links pra coisas úteis ou não, porque o Inagaki escreve de um jeito que parece até que ele está sentado no sofá da sala e você está na pia do banheiro, escovando os dentes, ouvindo o que ele diz. Visita obrigatória minha e de muita gente.

Crássico 2 – Cocadaboa . ÓÓÓÓÓÓÓÓBVIO, caboco. Porque eu não quero pagar o mico de acreditar em notícias do Cocadaboa. (Mas já acreditei em muitas, muitas, mesmo depois de passar a ler o site todo dia). Porque é engraçado. Porque é um site de nariz empinado. Leia, leia, leia.

Crássico 3 – Licor de Marula com Flocos de Milho Açucarados. A Alê Félix. Por quê? Porque ela um dia escreveu que é proibido ser gordo, porque quando eu entrei no mundo dos blogs, naquele longínquo 2003, TODO MUNDO tinha o link pra ela, porque depois eu fui ficar sabendo da história do Processo que a fabricante da Amarula moveu contra ela, por ela usar o nome Amarula com Sucrilhos, porque tenho esperança de um dia saber o final da Saga do Ovo negro e os incompetentes no amor, porque eu tento terminar de ler os arquivos dela e não consigo, por que eu acho ela uma pessoa tão legal, mas tão legal, que no dia que choveu hectolitros em São Paulo eu liguei pra Editora Gênese pra perguntar se ela tava bem, porque ela é a Alessandra Félix, e eu vou continuar lendo o blog dela pra ver se eu consigo virar amiga dela e não deixo nunca nunca ela morrer sozinha, miserável e louca. Porque eu quero muito, muito, saber de tudo o que ela quiser permitir que eu saiba, porque eu sei que em certas coisas a gente tem que meter a cara, e um dia eu vou pra São Paulo só pra escutairrr o sotaque eu já escutei pelo telefone. E espero que ela não me roube da minha mãe, como ela disse que ia fazer….

Crássico 4 – KibeLoco. Porque é muito mais divertido ver as fotomontagens do que ler jornal. (Chamem-me do que quiserem: foi por lá que eu acompanhei o mensalão, a cueca, a Karina Sommaggio e tudo o mais. Mamãe me contava o que tinha lido e eu contava pra ela o que tinha rido).

Crássico 5 – Malvados. Porque duas margaridinhas podem ser muito mais que apenas duas margaridinhas. E mesmo eu sendo uma ingênua (otimista/ pessoa cheia de fé/ alienada/ insira aqui qualquer palavra aplicável a sonhadores) incorrigível, aquela desesperança toda me faz rir, rir, e ver que o mundo pode até ser uma droga,mas EU GOSTO DELE!

E você? Quais são os seus crássicos da Internet?

quinta-feira, 10 / novembro / 2005 at 1:27 pm Deixe um comentário

Colagens Descoladas – Desarmamento

Olha só, fala sério velho. (…)Eu não vou votar não por motivos pessoais. Vc nunca teve uma arma apontada pra cabeça não é? Eu já, cinco vezes…

Uma dessas vezes foi um bandido daqueles que querem te assaltar. Ele viu que eu tinha três reais na carteira e me liberou. Ele era um bandido gente fina do tipo que cê convida pra sua festa de aniversário. Existem bandidos e bandidos…

Outras três vezes foram PM’s. Nenhum macho nunca passou a mão no seu saco, passou? E algum já enfiou o dedo por dentro da tua cueca? Algum macho já te deu um tapa no pé da orelha com uma arma apontada na sua cabeça? Já fizeram isso comigo, três vezes. Uma das vezes o PM deixou a arma cair no chão. Era uma doze, estava carregada e (graças a Deus) não estava engatilhada. Senão, quem sabe?

Na outra vez foi um cidadão de bem, com arma legal, que colocou uma arma na minha cabeça e quase atirou pra eu dizer onde é que tava a filha dele que tinha fugido de casa. Eu não disse (porque não sabia) e ele não atirou porque a empregada apareceu na hora. Vc já viu a morte de perto? Eu já… Vc já viu, por dentro do cano o brilho do projétil pronto pra te acertar? Eu já… Vc já olhou nos olhos de uma pessoa que estava pronta pra te matar a qualquer momento por causa de um motivo banal? Eu já… Vc já viu um 38 sendo engatilhado na sua cara e vc sem poder fazer nada pra salvar a sua vida? Eu já… O pior que foi um cidadão de bem que quase fez isso comigo…

Aqui na Ceilândia Norte eu conheço gente de todo tipo, bandido, ladrão, puta, crente, viado, PM, músico e até alguns universitários. Não entregaria uma arma a nenhuma dessas pessoas. Quantas pessoas mortas vc já viu em sua vida? Eu já vi centenas, muitas delas por facas, outras por overdose, outras por linchamento, espancamento e todos os tipos de morte que vc pode imaginar. Pelo menos 60% delas tinham armas de fogo envolvidas…

Quantos amigos deficientes físicos vc tem? Quantos deles são bandidos e quantos são mocinhos, de acordo com sua concepção? Cê imagina sinceramente nunca mais poder jogar bola, fazer sexo (nem mesmo bater punheta) e fazer a maior parte das coisas que vc faz por que alguem julgou que vc era bandido? De acordo com o julgamento da polícia talvez eu tivesse morrido três vezes, já que PM nunca para cidadão de bem, não é mesmo? Cê acha que eu sou bandido, francamente, meu camarada? Eu tenho dois amigos assim. Um tomou um tiro na espinha, o PM atirou primeiro e perguntou depois. Ele era irmão de bandido, mas nunca foi bandido. O outro é de nascença mesmo… Tenho um amigo cego também. Bandidos cegaram ele pra se vingar do pai. Ele tinha sete anos. Um dos bandidos era policial civil. Em nenhum desses crimes qualquer pessoa foi condenada, sequer presa…

Temos de combater a injustiça, meu velho, antes que os cidadãos de bem façam justiça com suas próprias mãos, não é mesmo? Não sei se o desarmamento ajuda de alguma forma, mas eu garanto que não atrapalha. Pede pra alguém colocar uma arma na tua cara e tu vai entender do que eu tô falando…

Falou…

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Outra colagem seguida, mas isso eu tava devendo faz tempo. Vocês lembram quando eu falei que não conseguia decidir se ia votar SIM ou NÃO na pinóia do referendo das armas? Não lembram? Bando de desmemoriados, vão tomar Biotônico e relembrem aqui.

Mas sim, eu estava dizendo que não conseguia decidir se ia votar sim ou não, e tudo isso. E foi aí que, no dia 21 de outubro, sexta-feira antes do referendo, este rapaz mandou este e-mail pra lista de e-mails nacional da qual nós participamos. E foi ele que me fez lembrar que eu acredito em um mundo melhor, acredito no fim da violência, acredito que all we need is love, e morro de vontade de dar uma chance à paz, e foi por causa desse e-mail que no dia 23 de outubro eu levantei a minha mão sedenta e recomecei a andar. Porque eu ainda acredito desesperadamente que uma coisa pequena que a gente faz pode mudar o mundo, SIM. Eu acredito SIM. E eu vou continuar fazendo isso, SIM.

Eu ia votar três na eleição. Votei 2, votei no sim. Perdi, perdemos. E nessa vitória do não, todo o Brasil perdeu muito. Perdeu a fé no Estado, no ser humano. Perdeu a certeza que viver sem guerra é bom. Perdeu a coragem de mudar algo e preferiu deixar do jeito que tava antes. Perdeu a oportunidade de fazer uma campanha esclarecedora e cidadã, que se ativesse a mostrar os fatos.
O Brasil perdeu no referendo.

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Esse e-mail foi escrito pelo Ulisses, uma das pessoas que eu mais tive prazer de conhecer nas viagens que fiz por aí. Obrigada, Poeta-de-Brasília,por permitir que eu colocasse seu desabafo aqui.
Menino-Matemático, espero te ver mais vezes, sem precisar ir em Cuiabá ou Brasília pra que isso aconteça.

E oh, sim, você faz parte da minha vida e deste blog também.

quarta-feira, 9 / novembro / 2005 at 12:44 pm Deixe um comentário

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Aspas da Semana

Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir. Gibran Khalil Gibran