Archive for outubro, 2005

Invenção chibata

Percepção minha – é difícil encontrar algo que seja exclusividade amazonense, pois o estado é bastante jovem e influenciado por grande diversidade de povos.
O Amazonas tem uma população composta por muitos nordestino-descendentes, filhos, netos e bisnetos dos Seringueiros do início do século ou dos “Soldados da Borracha” da Segunda Guerra Mundial; muitos indígena-descendentes, que têm de herança a cor morena da pele, o formato do rosto e os cabelos lisos. Sem falar nos sudeste-descendentes, filhos de pessoas que subiram do Sudeste pra cá nos anos 70, grande parte por causa da criação da Zona Franca, e mais uma porção de grupos diversos.

E porque estou falando isso? Porque o Amazonas tem uma identidade confusa. É complicado encontrar algo de que se possa dizer “isso é TIPICAMENTE AMAZONENSE”.

Eu, por exemplo: sou amazonense. Filha de uma Paraense branca de cabelo liso e preto com um Roraimense moreno de cabelo crespo, com bisavô Português, Bisavó índia macuxi,raízes maternas no Ceará, raízes paternas em algum lugar entre Portugal e Líbano, e com alguma influência africana no meio disso tudo. Sou branca que nem um picolé de coalhada, tenho cabelo preto e cacheado. Muitas pessoas já disseram que tenho jeito de portuguesa ou espanhola, e várias vezes já duvidaram que eu fosse daqui. Ora, eu sou amazonense, mas não sei se poderia ser considerada um fruto da terra.

Assim como é comigo, é com os usos e costumes daqui.
A gente gosta de comer tapioquinha,tomar açaí, que são de origem indígena.Mas também se come tapioquinha e se bebe açaí no Pará, no Acre, em Rondônia e Roraima.
No Amazonas se ouve muito forró. Os músicos são daqui, mas o forró é nordestino – e os forrozeiros amazonenses cantam com sotaque nordestino…
Um dos pratos mais gostosos é Surubim ao molho de camarão. O surubim é um peixe dos rios daqui, mas camarão…é um fruto do mar. E aqui não tem mar.
Quase toda festa de aniversário amazonense conta com vatapá. Os churrasquinhos de rua também vendem pratos compostos por: um espeto de churrasco, arroz, vatapá, maionese de batata com cenoura e farofa. O vatapá é baiano por definição, não é mesmo?

Mas não pensem que o Amazonas não tem nada de seu. Tem sim: há expressões linguísticas que só acontecem no curso do Solimões. O título do post é uma delas – chibata é algo bom, legal, gostoso. Chico Buarque é MUITO chibata, por exemplo. E tem uma discografia maceta, ou seja, muito grande.

Agora, vem o motivo deste post: a criação amazonense chamada X-caboquinho.

Sabe o pão? É, o pão. Mistura de farinha de trigo, água e fermento, assada no forno, crocante e dourado por fora, fofo e branco por dentro, sem gosto específico e com um maravilhoso cheiro…de pão.

Sabe o queijo coalho? Isso, o queijo coalho. Feito a partir da fermentação do leite, acrescido de sal. Branquinho, salgadinho, vendido em qualquer feira.

Sabe a banana? Claro que sabe. A banana, fruta símbolo do Brasil, macia, com uma imensa variedade de tamanhos/cores/nomes, mas sempre com aquele jeitão bananoso. Nunca conheci uma pessoa que afirmasse não gostar de banana. Aqui em Manaus, a banana é frita em grandes tachos e vendida na rua,em carrinhos, como pipoca ou batata frita. Pode ser doce (com calda de açúcar queimado) ou salgada (cortada verticalmente e seca no forno); pode ser frita num ponto mole, ou durinho (como um biscoitão).

Sabe o tucumã? NÃO? Bem…Como explicar? Pra quem conhece, na aparência ele é primo da pupunha. O tucumã é uma frutinha de uma palmeira amazônica(e eu suponho que seja mais comum no Amazonas, pois em Belém não se vê à venda).

Tucumã descascado

É pequeno, do tamanho de uma bola de tênis de mesa (nunca pingue-pongue, nunca). Tem casca fina, não tão fina quanto uma casca de maçã, não tão grossa quanto uma casca de manga.O caroço é grande (80% do volume da fruta), preto e duro, sendo matéria prima para anéis, brincos, e outras coisinhas do estilo. A polpa é oleosa, alaranjada, fibrosa e tem um sabor que fica entre o salgado e o oleoso, sendo na verdade um inexplicável gosto salobro, que não parece com nada que eu conheça – é gosto de tucumã mesmo. Nilson Chaves tem uma música, Flor do Destino, que diz :”Tu me deste um sonho/ eu te trouxe um gosto de tucumã/ Tu me deste um beijo/ e a gente se amou até de manhã/ Veio o sol nascendo/ e nos despertou/ da gente virando terra, mato, galho e flor! ” Eu adoro tucumã, apesar de minha mãe reclamar que, quando come tucumã, passa o dia arrotando com gosto da fruta.

Tucumã

Colar feito com caroço de tucumã

O X- caboquinho é a junção dos elementos descritos acima. Junte um pão francês, passe margarina e ponha na chapa. Derreta um retângulo de queijo coalho, ponha dentro do pão. Bote também umas tiras de banana frita, em ponto mole, sem sal nem açúcar. Acrescente uns pedacinhos de tucumã, sem economizar. Feche o pão e achate-o na chapa. Mastigue e agradeça a Tupã.

Nham, nham, nham...

Quando andar por Manaus, não deixe de experimentar esse sabor. Cedinho, acompanhado de um copo de café com leite, em uma banquinha de café que tem de montão pelas calçadas daqui.

Ou faça como um rapazinho paraense, que entrou em contato com essa iguaria às duas da tarde de um domingo nublado, e se tornou fã declarado do X-Caboquinho, assim como eu sou fã alucinada da maniçoba, essa feijoada verde absolutamente paraense. A vida é feita de trocas, não é mesmo?

segunda-feira, 31 / outubro / 2005 at 2:14 pm Deixe um comentário

E, pra não dizer que não falei de mim….

Metade
Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca. Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.
Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste. Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante. Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor, apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento. Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço, que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada. Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância. Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei…
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito. E que o teu silêncio me fale cada vez mais. Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer. Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, canção.
E que minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade…

também.

Oswaldo Montenegro (Mas bem que podia ter sido eu!)

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Faltam sete horas pra que o avião mais importante do mundo desembarque em Manaus. Que a viagem seja divertida, que a chuva não apareça, que as estrelas se mostrem completamente, que a barrinha de cereal esteja doce…

e que Manaus vista lá de cima seja “feito um navio no meio do mar.”

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Tic-tac pra vocês todos…E, novamente, bom fim de semana.

(na segunda, vocês me dizem se ficaram com a musiquinha da Terezinha de Jesus na cabeça.)

quinta-feira, 27 / outubro / 2005 at 3:36 pm 1 comentário

A VERDADEIRA HISTÓRIA DE TEREZINHA DE JESUS, aquela gulosa…

“Terezinha de Jesus,
na porrada foi ao chão
acudiram três cavalheiros
todos com o pau na mão!

O primeiro foi no cu,
o segundo na buceta
o terceiro se fodee-eu,
teve de bater punheta!”

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Bom final de semana pra todos vocês…

quinta-feira, 27 / outubro / 2005 at 2:43 pm 1 comentário

♪Eu tenho tanto, pra digitar…♪

E depois de sair do trabalho, chorar no colo de mamãe soluciona efetivamente tudo.

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Comer três sonhos de valsa ajuuuuda a passar a TPM, mas dá uma dor de barriga…

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E eu resolvi encenar Romeu e Julieta(versão infantil, que eu fiz no meu longínquo Ensino Médio). Fui procurar o texto, e descobri algo aterrador: escondidos nos armários de casa, jaziam o equivalente a oito resmas de papel usado.

Todos meus. Anotações do meu primeiro período na faculdade (Dezessete anos, quão longe estais!), apostilas de matérias que eu posso ou não ter aprendido, panfletos de filmes que eu assisti no Cine-Vídeo do pessoal de Comunicação Social, zilhões de bilhetes de cinema (de 2001 a 2005), lembrancinhas miúdas de coisas que eu NÃO LEMBRO o que eram.

Fiquei tão assustada com o tamanho da bagunça que decidi: ia passar o aniversário de Manaus organizando, classificando, colecionando biblioteconomisticamente , com direito a pastas de elástico, etiquetas e tudo o mais.

Segunda, Manaus amanhece com 336 anos (e um corpinho de 36). Lá vai a Menina-Prodígio, lutar contra A Terrível Pilha de Papéis Assassinos e Macarenantes. (Macarenantes- neologismo by Inagaki) .

Resumo da ópera? 50% dos papéis rasgados, alguns minutos perdidos relendo cartas de amor (quando eu tinha treze anos eu recebia cartas de amor tão lindas quanto os e-mails de amor que publico aqui. Alguém lá em cima providenciou pra que eu só encontrasse meninos fofos no meu caminho.), diários antigos (com coisas inacreditáveis escritas, do tipo “Um lugar de meu refúgio são teus olhos/ olhos brilhantes de sorriso largo/ de vida adorável/de amor amigável”), cartões de embarque das minhas viagens pra Cuiabá, Belém e Brasília, papéis de presente, textos teatrais escritos por mim (e dói ver quão mal-escritos eles foram!), muito textos que eu encenei e nem lembrava mais, meu cadernos da época do cursinho, escritos com caneta com cheiro de morango (o cheiro só sobrou na memória), manifestos contra a Reforma Universitária, crachás das muitas palestras que assisti, fotos (FOTOS FORA DO ÁLBUM, um pesadelo completo), lacinhos coloridos de presente, agendas novas de anos passados, apostilas de Administração de materias totalmente lidas, decoradas e marcadas com marca-texto, apostilas de Administração Financeira intactas, apostilas de Teoria da Administração que eu adorava ler depois de almoçar no Bandejão, trabalhos de todos os cinco períodos que já cursei na faculdade, confirmações de matrícula, o envelope no qual a Alê Félix me enviou o Balde de Gelo (ela escreveu MENINA-PRODÍGIO [mesmo] no envelope, e ainda desenhou uma carinha ), cartas de quando eu tinha oito, nove, dez, onze,doze,treze,quatorze,quinze,dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove e vinte anos, de pessoas que eu não sei onde estão, de um rapaz de São Paulo com quem eu me correspondia (VIA CARTA! CARTA, gente!), de uma amiga muita querida que tomou outro rumo, do Menino-Com-Cara-de-Artista (além de e-mails, ele me mandou cartas, também, tá?), do meu primeiro namorado, que hoje mora em Porto Velho, adesivos de joaninhas, Folders com a programação de Secretaria de Cultura. Textos usados na evangelização do Centro Espírita em 1997. Poemas de ferreira Gullar copiados com a minha letra de criança, que continuam me impressionando do mesmo jeito. Letras de músicas, muitas, algumas copiadas, outras impressas. Cifras do Djavan. Cadernos em branco. Cadernos semi-novos. Cartões de Natal. Um atestado de doação de sangue.

Muita coisa rasgada e jogada no lixo. Muita coisa devidamente arquivada. Pastas etiquetadas, colocadas no armário em ordem de tamanho. Cartas guardadas com muito carinho, em ordem de remetente.

E aí que eu percebi: a história da gente é contada pelas coisas que a gente não tem coragem de jogar fora.

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Terminei às quatro da tarde, e convidei Mamãe-Prodígio para ir ao cinema. Assistimos “O Coronel e o Lobisomem”. Bom filme, Selton Mello cada vez mais talentoso, Diogo Villella mantendo uma interpretação firme em cada segundo, Ana Paula Arósio sendo linda (Meu Deus, como ela é linda. Tem um momento de close no rosto dela que me deu vontade de sair correndo antes de ser sugada por aqueles olhos), e uma participação carinhosa e marcante de Francisco Milani (Pedra Noventa, só enfrenta quem tiver Tolerância Zero…).

Pra quem for: Muita atenção no Galo Vermelhinho. Ele é uma graça.

Só notei uma coisa: o linguajar do filme é difícil, cheio de expressões inventadas como “homem desgracentoso” “paletó embonecrado” e ” De repentinosamente “. As construções também são pouco usuais, com períodos longos e cheios de subordinadas. Não vai fazer tanto sucesso quanto “Lisbela e o Prisioneiro”, o que é uma pena, pois “Lisbela” é um filme com acabamento bastante inferior e interpretações muito fracas.

Em suma: “O Coronel e o Lobisomem ” não é uma obra-prima, mas é uma boa realização. O final me deixou com um gostinho de “podia ser melhor”, porém, como não li a obra que inspirou o roteiro, não sei dizer se fez justiça ao texto.

Nota: Se vocês tiverem uma mãe como a minha, fiquem atentos para sacudi-la sempre que ela começar a dormir.

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Recebi este e-mail no domingo de manhã:

Esse e-mail vai ser um pouco curto, só porque eu sei que tenho que te dizer, que preciso te dizer algumas coisas, que gostaria muito que você lesse assim que chegasse no trabalho.
Bom, a primeira é:

Vou para aí nessa quinta feira, 27 de outubro, às 22:30, hora Manaus.

Todas as outras posso te dizer pessoalmente, logo, logo.
Mas te adianto alguma coisa, como por exemplo que eu te amo, que preciso muito de você, sua alegria, sua companhia, seu amor.
Que morro de saudades, e as coisas daqui sempre parecem que seriam bem melhores com você por perto.
Vou poder experimentar novamente a sua proximidade daqui a 3 dias. E durante uma semana. Uma pena que seja apenas uma semana, mas vamos ver como as coisas evoluem, com o tempo podemos nem precisar ver datas de separação….
Mas enfim. Te amo minha linda, e ainda te vejo nessa semana que começa hoje.
Beijos meu amor,

Artista

PS.: Sei que passou pela sua cabeça. Sim, meus pais estão bem, (…). Eles me deram um apoio que chegou a me emocionar. (…) as coisas se tranquilizaram bastante por aqui. Até logo…

A felicidade tem data e hora marcadas pra começar. Mas eu acho que não faz mal eu ir ficando feliz desde agora, não é mesmo?

A todos os que se preocuparam comigo, muito obrigada. Especialmente Mamy Cláudia, meu colo virtual, uma pessoa que tem tanto jeito com pessoas descontroladas que até nas letras digitadas pelos dedos dela eu consigo sentir calor humano e carinho. A gente pensa que esse negócio de Internet é frio, e de vez em quando vem uma surpresa boa dessas, todo mundo dando F5 pra ver se o seu piti já melhorou.

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Eu deveria dividir esse post em quatro, ou vocês acham que ficou bom assim?

terça-feira, 25 / outubro / 2005 at 11:59 am 1 comentário

Pendurada

Sexta-feira, meu dia preferido da semana.
Eu devia estar feliz, né?

Segunda-feira que vem é feriado, aniversário da minha cidade.
Eu devia estar feliz, né?

Sexta-feira que vem também é feriado.
Eu devia estar feliz,né?

Tenho uma boa possibilidade de aproveitar o feriadão com meus amigos e colegas.
Eu devia estar feliz, né?

Tenho dinheiro no banco.
A greve da Universidade vai acabar.
Tenho um livro legal pra ler.
Tenho um planejamento de um super-evento a redigir.
Tenho um baby-chá pra ir, daqui a duas horas e meia.

Eu devia estar feliz….

Mas enquanto não chegar o e-mail eu não vou conseguir deixar de me sentir melancólica.
Cruzem os dedos. Façam uma corrente positiva. Rezem pra que só aconteça o melhor. Hoje é um dos dias mais esquisitos da minha vida, e eu estou precisando muito ter certeza de um negócio.

Droga de caixa de entrada que não reage.

sexta-feira, 21 / outubro / 2005 at 12:25 pm Deixe um comentário

Dúvida

De mãe é materno.
De pai é paterno.
De irmão é fraterno.
Qual o adjetivo de amigo mesmo, que me deu um branco absurdo?

quinta-feira, 20 / outubro / 2005 at 12:48 pm Deixe um comentário

Psiu, psiu!

Já há algum tempo eu penso em escrever sobre isso – até já tinha prometido pra ele .

É garantido pelas leis o direito de ir e vir. Dentro de certas regras, é claro – não é permitido passear dentro da casa dos outros sem ser convidado, atravessar fora da faixa, ir ao exterior sem passaporte. Mas, em condições normais de temperatura e pressão (ah, longínquo Ensino Médio) ninguém tem o direito de importunar enquanto você vai ou vem.

Então, por favor, me respondam: porque os homens acham que as mulheres gostam de ouvir baboseiras quando andam pela rua?

“Oi, linda”,”Amor, você tá linda”,”Ai, delícia”,”Nossssssa”, o detestável e horrível “Vem cá, princesa” e o pior de todos os piores: “Eu não sabia que boneca vinha fora da caixa”. Sem falar no inoportuno e lascivo “Oooooooooi”.

Eca, eca, eca. Me deu até gastura de escrever essas coisas e lembrar.

Por quê? Porque uma mulher não pode andar pela rua em silêncio? Ou, por cordialidade, ouvindo “Bom dia, moça”? Porque uma mulher tem de ser vista como ALGO que passa? Porque essa coisificação?

Quem deu a eles o direito de perturbar o meu silêncio? Eu é que não fui. E não gosto disso. Percebo nisso apenas um resquício machista e um desejo de dominar mesmo.

Dominar? Sim. Ao menos comigo, esses episódios só acontecem quando estou vestida normalmente, pra estudar ou trabalhar. Nas vezes em que saio na rua com maquiagem de teatro (sombra azul com batom vermelho, muito rímel e purpurina no cabelo, ocasionalmente uma estrela desenhada na bochecha), nenhum homem mexe comigo. Ficam observando meio de canto (e é justo que observem, pois é chamativo mesmo), mas nenhum joga piadinhas. Sabe por quê? Por que esses homens não encaram uma mulher segura de si, exuberante, com consciência de que está chamando a atenção. Eles só jogam cantadas pra mulheres aparentemente desprotegidas, “comuns”, estudantes ou trabalhadoras apressadas, que vivem de olhos baixos pra não ter que encarar a expressão gulosa do panaca.

Nenhum está interessado na pessoa – só enxergam a mulher, peito-cintura-bunda-coxas-vulva. Que nem precisa ser mulher, pode ser uma menina de dez anos. E não precisa ser bonita, pode até ser parecida comigo.

O que um cara espera quando faz esse tipo de gracinha com uma mulher desconhecida? Que ela fique hipnotizada e arranque a roupa? Que faça feito a Dama do Lotação e, possuída por uma onda de instinto primata, foda furiosamente com ele? Que se apaixone perdidamente e fuja de casa pra morar com ele? Que seja mais feliz por ter ouvido uma cantada? Que se sinta elogiada?

Não: só visa causar pejo. Ele (inconscientemente?) quer que ela baixe os olhos e fique sem saber o que fazer, para poder comprovar que tem poder sobre ela. Ele pode importuná-la e ela não pode reagir.

Quão desprezível é alguém que se compraz em perturbar o trajeto de outro?

*******

Já passei um momento de pânico. Quem já andou perto da minha casa sabe que meu bairro é cheio de ruas estreitas, tortuosas e inclinadas. É um bairro que tem tanto casas quanto estabelecimentos comerciais: mercadinhos, farmacinhas, lanches (um termo amazonense para Lanchonete), lojas de roupas e…açougues.

Estudo inglês aos sábados, e depois de descer do ônibus, ainda tenho de andar um bom pedaço a pé. Acho que são uns vinte minutos andando, sendo que sete minutos são gastos na travessia de uma rua comprida, estreita, deserta e muito mal-frequentada. Subindo ladeira, pra completar.

Lá vou eu, sol de meio-dia, calça jeans e blusa de manga três-quartos, chinela havaiana verde. Passa uma Kombi carregada de peixe. No banco dianteiro, o motorista e mais três caras.

Começa:

-Nossa, que coisa mais linda! Não quer uma carona, amor? Tá sol…
-Só de te ver o calor aumentou…Vem sentar no meu colo…

Blá blá blá. Eu, fingindo não notar, esperando que a Kombi fosse embora. Ela continuou, me ultrapassou, o cara que estava na janela do passageiro botou meio corpo pra fora e ficou gritando qualquer coisa na minha direção. Teria ficado tudo bem, se a Kombi não tivesse parado.

Eu continuei andando, e a maldita da Kombi me esperou passar. Ficou andando emparelhada comigo, e o cara esticando o braço pra passar a mão em mim, ou puxar meu braço, sei lá.

Do meu lado direito, um muro alto e uma calçada de dois palmos de largura. Do meu lado esquerdo, os quatro cavaleiros do Akombicalipse. Presa. Só dava pra andar pra frente.

Não ia adiantar correr. Eu apressei o passo, e fingia não perceber que o cara estava puxando meu braço esquerdo e passando a mão no meu cabelo. Olhava fixamente para o chão e rezava pra que a rua acabasse logo, que eles fossem em frente e eu pudesse dobrar a esquina.

Foram dois ou três minutos de pavor. Não tinha ninguém por perto, e se eu gritasse, só quem ia ouvir eram os tijolos do muro da escola (sábado, meio dia? Nem o vigia devia estar lá). Eu andando, o cara pegando no meu cabelo, os outros gargalhando, o cheiro de peixe, a rua que não acabava nunca. O medo de que eles resolvessem descer da kombi e fazer uma maldade comigo.

Sentia o meu rosto pegando fogo por causa da humilhação, da vergonha, do medo, do desrespeito. Lembrei de uma coisa que a minha mãe sempre diz: “Quando tu te sentires ameaçada por alguém, reza pro anjo da guarda da pessoa. Ele precisa de ajuda pra não deixar a pessoa cometer o mal.” Rezei desesperadamente, gritando mentalmente pra que aquilo acabasse. Olhava e via meus pés, um na frente do outro, depressa, depressa, depressa.

De repente, a rua acabou. A Kombi acelerou e desceu a ladeira, o cara ainda com meio corpo fora da janela, me jogando beijos e acenando.

A reação do nervosismo veio, e eu comecei a correr. Dobrei a esquina, desci a ladeira escorregando na areia de uma construção, corri dois quarteirões sem parar. Quando faltavam três ruas pra chegar em casa, parei e senti o sangue subindo no rosto. Os joelhos tremendo sem parar.

Sentei na calçada e chorei de raiva e nervoso.

********

E não são só os peões de obra não. De todas as idades (até os menores, de nove ou dez, e os mais velhos, de sessenta ou mais), de todas as classes sociais, de todas as cores. A pé, de bicicleta ou de carro (sendo que, nesse caso, a cantada é acrescida de duas buzinadinhas e uma piscada de farol). Bombeiros, Policiais, Médicos, Peixeiros, Desocupados-que-ficam-sentados-no-meio-fio, Bêbados. A única classe que nunca me importunou foram os Frentistas. Palmas para eles.

E sempre com desconhecidas. Em um lugar onde há uma chance de ver a moça novamente, os panacas se controlam (Universidade, Escola, curso de saxofone, Eventos).

Rapazes que lêem esse blog: vocês fazem isso? Por quê?
Moças que lêem esse blog: vocês passam por isso? O que pensam?

Todos que lêem esse blog: Ainda há chance de conseguir um mundo com mais respeito, gentileza e cortesia?

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Pronto, postei . Em breve, um post sobre gente que cospe na rua.

terça-feira, 18 / outubro / 2005 at 12:28 pm 1 comentário

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Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir. Gibran Khalil Gibran