Archive for setembro, 2005

Crime

Sala de espera. Boa comida, fundo musical agradável.

Ele olhava para a porta esperando sua grande chance. Na sala de espera, juntava forças para enfrentar o enorme desafio que residia além da porta.

Além daquela porta, mil possibilidades. Inúmeras atividades que ele poderia exercer, dependendo dos conhecimentos que seu orientador lhe desse.

Embalado pela expectativa de tantas oportunidades, dormiu.

Foi despertado pelo estrépito da porta sendo aberta. Agressores portando ferros agudos perfuraram seu tórax, despedaçaram suas entranhas, arrancaram seus braços.

Tanta brutalidade roubou-lhe a voz. O que estava acontecendo? Nem tivera a chance de fazer algo errado!

Enquanto sua carne era rasgada, ainda conseguiu entender parte da conversa de seus agressores.

Seu orientador estava muito ocupado e não poderia treiná-lo, portanto, desfizera-se do compromisso.

Os pedaços de seu corpo foram jogados no latão de lixo.

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ESTE BLOG É CONTRA O ABORTO.

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Hoje, 28 de setembro, é o Dia pela Descriminalização do Aborto na América Latina e no Caribe.

Eu não concordo com a descriminalização do aborto.

É crime. É assassinato. Algo que é ESSENCIALMENTE MAU não vai passar a ser bom por canetada.

Um bebê não é um problema. Um bebê é um bebê. Se tudo der certo, vai respirar, andar, passar no vestibular, chegar tarde em casa e fazer planos.

Entendo o desespero de quem se vê mãe sem estar preparada pra isso. (Entendo em parte, pois nunca engravidei. Mas já levei vários sustos.) Acontece que o nosso egoísmo não pode ser tão grande a ponto de colocar nossos interesses (minha privacidade, meu tempo livre, meu dinheiro, minha psique) acima da vida.

Pois, cá entre nós: se quem estivesse interessado na descriminalização do aborto fossem EFETIVAMENTE mulheres desesperadamente pobres que não têm acesso a métodos anticoncepcionais, haveria alguém lutando por essa causa?

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Cada um defende a causa que quiser. Ah, mas ia ser tão melhor se ao invés de lutar pela descriminalização do aborto, todo esse pessoal lutasse para que as mulheres pobres tivessem acesso a pílulas anticoncepcionais, tratamento médico adequado, educação sexual!

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Blogada de acordo com o tema do Nós na rede.

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quarta-feira, 28 / setembro / 2005 at 4:21 pm Deixe um comentário

Variações sobre o mesmo tema

Chico Buarque é notoriamente um cara que entende de mulher.

Mas tem outros caras que também entendem .

Fabrício Carpinejar fala sobre o medo de estar apaixonada .

Adorável desgraçado, vai ler os pensamentos da mãe.

quarta-feira, 28 / setembro / 2005 at 3:15 pm Deixe um comentário

Terror não se vê só em filme

Hoje eu sonhei contigo tanta desdita, amor… nem te digo.Tanto castigo que eu tava aflita de te contar!Foi um sonho medonho, desses que às vezes a gente sonha, e baba na fronha, e se urina toda, e quer sufocar.

Meu amor, vi chegando um trem de candango formando um bando. Mas era um bando de orangotango pra te pegar! Vinha nego humilhado, vinha morto-vivo, vinha flagelado… de tudo que é lado vinha um bom motivo pra te esfolar.

Quanto mais tu corria, mais tu ficava, mais atolava, mais te sujava. Amor, tu fedia, empestava o ar! Tu, que foi tão valente, chorou pra gente, pediu piedade! (Olha que maldade, me deu vontade de gargalhar).

Ao pé da ribanceira acabou-se a liça. Escarrei-te inteira a tua carniça (e tinha justiça nesse escarrar!). Te rasgamo a carcaça, descemo a ripa, viramo as tripa, comemo os ovo…e aquele povo pôs-se a cantar!

Foi um sonho medonho, desses que às vezes a gente sonha,e baba na fronha e se urina toda e já não tem paz…

Pois eu sonhei contigo e caí da cama!
Ai, amor, não briga!
Ai, não me castiga…
Diz que me ama e eu não sonho mais.

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Que filme de terror que nada, isso é que me fez sentir medo durante anos na minha infância.

Ah, olhos verdes, olhos verdes…

quarta-feira, 28 / setembro / 2005 at 2:23 pm Deixe um comentário

Meu endereço

Eu moro bem ali,

cinco metros depois da Angústia,

vizinha de frente da alegria e de fundos da tristeza.

Minha casa se equilibra entre a chatice e a simpatia,

E pra chegar lá eu tenho de passar por cinco Saudades e quatro amores.

As casas dos meus amigos ficam variando de distância,

às vezes tão perto que conseguem espiar meu chuveiro,

às vezes tão longe que não ouvem meu grito de dor.

Dentro da minha casa tem um abismo chamado Eu,

e todo mundo que enxerga esse abismo foge de medo.

Sentei na beira do abismo e fiquei balançando os pés.

Estou adiando,

adiando,

mas já passou da hora de pular nesse abismo e espantar os terrores lá do fundo.

Talvez eu precise viajar, ou tomar chá de camomila,

ou descobrir que nunca vou caber dentro de Eu.

(dias estranhos, sentimentos confusos.)

terça-feira, 27 / setembro / 2005 at 1:26 pm Deixe um comentário

Pano pra manga

Primeiro, vocês têm de ir lá na home do Rodrigo e ler este post incrível sobre o ensino de Direito no ensino Médio.

Eu comentei lá, mas o comentário foi ficando tão “a minha cara” que eu resolvi postá-lo aqui e compartilhar o debate com vocês.

Taí, gostei. No Ensino Médio, os conceitos de leis (e, por conseguinte, cidadania) poderiam ser mais aprofundados (de acordo com o nível dos alunos).
Agora, em defesa das artes. Como comentado anteriormente, aula de cortar papel p/ o Ensino Médio é um absurdo – mas quem disse que isso é arte?
No meu ensino Médio, segui a Apostila Positivo (sem querer fazer propaganda). O conteúdo delas foi várias vezes inadequado à realidade do ensino de Manaus – não abordava todos os conteúdos exigidos no vestibular, por exemplo. Porém, na parte de artes, era maravilhosa. Arte pré-histórica, clássica, muçulmana, barroca, rococó, gótica, moderna, cubista. Fotos de quadros famosos, biografias de pintores e escultores, relações da pintura com a literatura, visão de contexto histórico. Histórias em quadrinho e um bimestre inteirinho dedicado à china e Japão. Um projeto interdisciplinar sobre preservação dos mananciais, constando de música, teatro, pintura e debates.
Tudo isso numa escola pública! Logicamente, nem tudo foi 100% útil, pelos limites de meus colegas (eu fiz até a quarta série em escola particular, e meu pai era um homem excepcional que deixava de trocar o óleo do carro pra me dar assinaturas de revistas, cd´s, amor pelo saber.)
Sem arte, o ser humano é um pouco menos humano, Ghedin. Cancelando a arte do ensino médio, você ensinaria o quê aos quase-adultos? Que mais importante que ter pensamento livre, belo e criativo, é passar no Vestibular e ganhar dinheiro.
Ah, Pedagogos! Menos análise sintática, mais cidadania, liberdade, cultura e amor!


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Eu adorei a proposta do Rodrigo Ghedin, pois já tive alguns embaraços causados pela minha ignorância em Leis. Eu e minha mãe não recebemos pensão do INSS, depois que meu pai morreu. Eu menor de idade e vestibulanda, ela dona-de-casa que nunca tinha trabalhado, e meu pai tinha câncer, o que assegura direito ao benefício, ou reduz a necessidade de contribuição .

Se eu soubesse um pouco mais de lei, ia saber um pouquinho do caminho das pedras necessário para conseguirmos a pensão. E hoje não estaria trabalhando num lugar que eu odeio, grampeando papel e corrigindo os erros de gramática e ortografia dos meus chefes, pois poderia esperar mais um pouco antes de entrar no mercado de trabalho.

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Discordo do Rodrigo no breve momento em que ele diz que Artes poderia ser dispensada do Ensino Médio. No post dele, ele não quis se alongar nisso, e eu inadequadamente só falei sobre isso no meu comentário.

Eu sou artista de coração. Posso entender bem pouco sobre o assunto “ARTE”, posso nunca ter lido “Fragmentos de um discurso amoroso”, mas sou artista. Então, eu defender o estudo da arte no Ensino Médio parece piada, né?

Muito bem, vamos defender o estudo de Física.

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A Física é a primeira das Ciências Naturais. A mãe de todas, a super-super. A Física arruma uma nova utilidade pra Matemática: adivinhar o futuro. Eu não lembro o nome do carinha físico (o Menino-com-cara-de-Artista deve saber) , mas conto a historinha pra vocês.

O carinha físico estava fazendo contas pra solucionar alguma questão oculta sobre o Universo. (A Física é linda, fica querendo resolver as questões ocultas sobre o Universo!)

Aí, o carinha físico se deparou com um problema. No resultado das contas dele, aparecia uma raiz quadrada de menos um. Um imaginário.

Um imaginário em uma conta de física indica o contrário de alguma coisa que exista, ou seja, algo que não existe. O carinha fazia as contas, e as contas estavam dizendo pra ele que ele tinha descoberto algo que não existia no mundo real!

Ele foi se aconselhar com a comunidade científica. E disseram pra ele o que parecia óbvio:as contas deviam estar erradas.

Ele tentou corrigir as contas, mas o desgraçado do imaginário continuava aparecendo. Até que um dia ele resolveu acreditar em si mesmo e disse: “Acifudê, eu tô certo e isso aqui indica a existência de anti-matéria. ”

A comunidade reconhecia que as contas estavam certas, mas sorriu benevolente. O contrário da matéria, imagina… Mas, como não tinha como provar a falsidade ou realidade da idéia do carinha, deixaram a conta lá com o nome dele.

Alguns anos depois (terão sido dez? Ou quinze?), foi provada em laboratório a existência de algo que não existe: a anti-matéria. Ela JORRA, do centro da via-láctea, em forma de raios gama. JORRA, um jato monstruoso.

E isso foi provado por contas. VOCÊS TÊM NOÇÂO DA LOUCURA que é um ser humano, o espirro da bactéria que morava no testículo da pulga do Universo, usar números e sinais e descobrir a existência de algo que só existiu durante trilionésimos de segundo depois do Big-Bang?

O poder da Física é esse: explicitar o funcionamento do Universo, das galáxias aos quarks, do telefone ao eletransporte, do bit ao terabyte. A Física descobre como as estrelas nascem.

A Física escreve o manual de instruções que Deus não fez.

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Nenhum conhecimento é inútil. Um dos meus projetos é trabalhar para que todos tenham acesso aos mais diversos tipos de conhecimento, sendo livres pra saber em qual área trabalhar.

Quanto mais saber disponível há, mais liberdade há.

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Se houvessem mais opções (em qualquer área), haveriam mais Picassos, Einsteins, Feymmans e Tons Jobins. E todos poderiam gostar do que quisessem, sem depender de alguém que dissesse: isso é bom, compre e coma/ouça/leia/aguente.

Eu sou absolutamente louca pela liberdade.

sexta-feira, 23 / setembro / 2005 at 12:50 pm Deixe um comentário

Divagações futurológicas

Conversa no meu trabalho:

Eu – Enviou a planilha pra Brasília?
Coleguinha – Mandei por e-mail. Vê aí se já chegou a resposta…
Eu – Eles receberam. Amanhã chega a decisão.
Coleguinha – E-mail ou…
Eu – Fax.
Coleguinha – Vou ao banheiro, tá?
Eu – Vai, eu deixo!
Coleguinha – (Rindo) Tá bom. (Pára e fica me olhando digitar) Que engraçado, Menina!
Eu – O quê?
Coleguinha – Tu nunca te viu como eu te vejo!
Eu – !
Coleguinha – Quer dizer, tu só se vê se for no espelho, mas só os outros podem te ver assim, assim (grandes gestos de mão).
Eu – Hehe…Quando eu tinha TREZE anos eu pensava nesse tipo de coisa…

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Coleguinha – (De volta do banheiro)Como será que o pessoal conseguia usar o computador antes da Internet?
Eu – É, né? Hoje em dia, pra que serve um computador sem internet? Pra nada…
Coleguinha – Vai chegar o dia em que tudo vai ser pela internet. A pessoa trabalha em casa, manda o trabalho pela internet; faz faculdade pela internet, sem precisar perder tempo indo e voltando de ônibus pra faculdade…
Eu – Ah, mas tem gente que nem vai mais sair de casa….Eu, por exemplo: tem alguns dias que eu só saio de casa pra trabalhar e ir pra faculdade.
Coleguinha – Ah, mas aí tu ia ter tempo pra fazer o que tu gosta…Ia sair mais, se divertir mais. Daqui a um tempo, o mundo vai ser assim.
Eu – Ou quem sabe ninguém mais vai querer sair de casa. A violência vai aumentar muito, porque os pobres vão ficar mais pobres e os ricos mais ricos. Sair de casa vai ser inútil e perigoso.

(silêncio constrangido)

Eu – Er…Me dá aquelas passagens pra São Paulo?
Coleguinha – Tem que dar baixa né?
Eu – É, depressa.

(As duas engolem em seco, pensando sobre futuro, computadores e no céu azul lá fora.)

quinta-feira, 22 / setembro / 2005 at 1:30 pm Deixe um comentário

Hora de pensar

*Parte um*

É quando algumas horas viram dias e meses.

É quando as pilhas de papel são colecionadas em pastas, com etiquetas e
identificações.

É quando todos já sabem qual o seu nome e sobrenome.

É quando você comenta : “Ah, eu também já pensei assim!”

É quando você não tem mais tempo pra perder os olhos no teto imaginando
qual vai ser o seu discurso ao receber o Oscar.

É quando você espera a hora do almoço. Espera a hora da saída. Espera o
fim de semana. Espera pelas férias.

É quando você tenta ler antes de dormir e acorda as quatro da manhã com
a cara enfiada no livro e o corpo dolorido.

É quando vem a dor nas costas depois de uma leve “atividade física”.

É quando você não tem mais tempo de ter atividade física.
Ou de ficar sem fazer nada.

É quando você pensa que a melhor fruta é a maçã, que não precisa
descascar nem espremer. Você nunca gostou de maçã antes, sempre preferiu abacaxi.

É quando você começa a achar tudo “inútil”. Que revista inútil, que
sapato inútil, que show inútil, que carta de amor inútil.

Talvez seja a hora de procurar outro emprego, que respeite mais o que eu sou.

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*Parte dois* – Como eu descobri que fiquei adulta

Há algum tempo atrás, eu pensei estar grávida.

Meu primeiro pensamento foi: “Não posso faltar ao trabalho para ir ao
médico – preciso de um que atenda aos sábados.”

*Parte três* – daqui a cinco anos

Arranjar um trabalho com horário flexível, defender a dissertação de
mestrado fora de Manaus, adotar um filho e trabalhar com arte.

E comer mais abacaxi, menos maçã.

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“E louvo, pra começar
Da vida o que é bem maior
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor
Quem espera sempre alcança
Três vezes salve a esperança!”

quinta-feira, 15 / setembro / 2005 at 1:47 pm Deixe um comentário

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Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir. Gibran Khalil Gibran