Archive for junho, 2004

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Um dia de companheira

E na quarta feira, dia 23, teve paralisação na Universidade.

*
Eu agradeci a Deus, pois ia ter prova de Estatística, e não sabia nada do assunto. Quando vi o Professor Kikão com narizinho de palhaço, protestando contra a “reforma universitária privatista de Lula e do FMI”, me deu vontade de soltar rojões!

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Mas como o protesto não tinha sido feito exclusivamente pra cancelar minha prova, entrei em um ônibus ligeiramente decrépito e ligeiramente lotado pra chegar no lugar onde estaria a equipe do MEC pra fazer o debate. Detalhe: nós não tínhamos sido convidados.

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Resumidamente, nós chegamos lá, pulamos a grade, apitamos, invadimos e protestamos contra a reforma privatista de Lula e do FMI, até que os engravatados do MEC foram embora e cancelaram a Audiência pseudo-pública.

Os estudantes assumiram o lugar e fizeram uma assembléia. Eu deitei no joelho do meu amigo e viajei por lugares desconhecidos do reino de morfeu (dormi profundamente mesmo!!! Cheguei até a sonhar!). Quando eu acordei, mais de 60% das pessoas já tinha ido embora, mas a assembléia estudantil continuava…

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E de repente eu me perguntei se eu tinha realmente acordado ou se continuava sonhando…

Tinha um menino usando o megafone. Quando eu olhei pra ele, vi que ele tava usando uma camisa que tinha a palavra “paz” escrita em vários idiomas. Na última linha tinha bem assim:

SHALOM – SALAM

Que é “paz” na língua dos judeus e dos palestinos, respectivamente. Achei genial…

Quando olhei pro dono da camisa, vi que ele era bonito,tinha uma boquinha em forma de coração,e esta boca falava coisas com nexo. E terminou dizendo : “Eu vim do Acre, o MEC pagou minha passagem, mas eu tô aqui, na luta com vocês!”

Pensamento: “Eu preciso beijar esse menino antes que ele volte pro Acre!”

Sim, eu senti vergonha de mim mesma! Mas, intrepidamente, fui sentar no chão ao lado dele:

-Oi,companheiro do Acre!
-Oi?
-Muito bom seu discurso. Lá na tua universidade tem grupo tutorial também, né?
-Olha…Eu sei que tem, mas sei muito pouco sobre eles…

(Alerta vermelho! Menina-prodígio, coragem, não se esqueça que ele vai voltar pro Acre!)

-Tudo bem. Preciso anotar teus dados: nome, e-mail, telefone, endereço. Pra manter contato, sabe?
-Nossa…Tudo isso?
-É, a minha agenda é eletrônica e tem todos esses espaços…

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Começo razoável. Ponto pra mim!

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-Mas sim, Menino-Bonito-do-Acre, o que achou da manifestação de hoje?

-Foi pioneiro no movimento estudantil do Norte. Cancelar um evento do MEC, já pensou?

-Isso…

-Porque você tá com “não” escrito de batom na testa?

-Porque na testa não cabe “não à reforma universitária privatista de Lula e do FMI”!

-Hehehe…Aposto que ‘cê tá tão cansada quanto eu de ouvir isso.

-Não aguento mais! Aliás, detesto esses lugares-comuns; tem “a reforma privatista de lula e do FMI”, tem “aqueles pelegos da UNE”, tem “os interesses dos tubarões do ensino”, tem “a garantia de um ensino superior de qualidade, público,laico e gratuito para todos”…

-Hahaha, é isso mesmo…Porque as pessoas ficam presas a esse tipo de hipocrisia? Será que não tem termos próprios?

-Todo mundo se prende a padrões…Eu não.Eu vivo ouvindo críticas pelo meu jeito, mas não tô nem aí. (Deitando no chão, com a cabeça na minha mochila) Eu sou de outro planeta!

-(sorriso dele)Eu sou de Plutão… (deitou do meu lado, com a cabeça na mochila dele).

-Sabe, eu acho que tem planetas quadrados, triangulares, redondos e elípticos. Eu acho que eu sou elíptica e esse planeta é redondo. Eu não caibo nele.

-Eu compreendo.

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Sabe quando dá o clique? Pois é, deu o clique.

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-Ei, que horas sai teu vôo?
-Dez da noite.
-Tá de bobeira à tarde?
-Tô.
-Tem uma galera que vai no cinema, umbora?
-Umbora.Ver qual filme?
-Cazuza.
-CARA, EU TÔ DOIDO PRA VER CAZUZA E CONHECER O CINEMARK!
-Vai ser legal. A gente pega o ônibus quase decrépito e volta pra universidade, e lá da porta a gente chega lá.

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Pensamento: Yes, yes!

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Pegamos o ônibus decrépito. A conversa não parou. Arte, música, desenvolvimento regional, política, a grandeza de Manaus…Descemos no shopping (em Manaus só tem um que mereça esse nome mesmo), pois uma amiga dele do Acre trabalha lá perto e tinha marcado com ele.

Muito bem, pedimos o almoço. Acho que ficamos bem uns quarenta minutos esperando nossa comida (já eram duas e meia da tarde), famintos! Durante esses quarenta minutos, a conversa não esfriou: fiquei sabendo das músicas da banda dele, depois discutimos o porquê de toda banda adolescente ser de rock, depois sobre as vertentes do movimento estudantil, depois de nós mesmos.

E foi ficando pessoal. E de repente, eu senti uma boquinha em forma de coração encostando na minha face. Na bochecha. Quase no canto esquerdo da boca.

Eu um pouco medrosa:
-Sabe que eu ia te pedir isso?
Ele um pouco contente:
-É?
Eu um pouco sarcástica:
-Na verdade, não exatamente isso…

Ele me puxou.
E me beijou.
Pê-é-erre-efe-é-i-tê-ó
P.E.R.F.E.I.T.O.!!!!!!

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Nossa…Maravilhoso demais. E não foi só um beijo não! Foram vários, todos maravilhosos. A barba cerrada, que apesar de estar bem feita arranhava (ai, arranhava…). O perfume. A fúria. O ritmo.

Minha nossa, que foi bom demais!

Como eu mesma disse, foi um almoço aprazível…E a conversa continuou ótima… Só não fomos assistir Cazuza por culpa do MEC, que não se tocou que ninguém queria aquela audiência pseudo-pública e transferiu para o Tropical Hotel.

Lá fomos, eu e ele, enfrentar uma hora de ônibus até chegar na Ponta Negra…

Dentro do ônibus, ele colocou a mochila dele no meu colo, e deitou em cima.
Quando eu vi ele no meu colo, me deu uma vontade quase irracional de chegar no ouvido dele e dizer : “Eu te amo”. Mas o que eu disse foi:

-Eu te acho uma gracinha.
Ele:
-Eu também te achei o máximo. Não é em qualquer pessoa que eu deito no colo.

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Quando chegamos no lugar onde ia acontecer a Audiência pseudo-pública do MEC, a delegação do Acre tinha se retirado e estava discutindo com os representantes do MEC. Fiquei tão indignada pelo fato da audiência que EU e mais trezentas pessoas tinham anulado pela manhã esar acontecendo à revelia, que entrei na sala de conferências.

E me perdi dele.

Quando saí, às oito da noite, não tinha mais ninguém do Acre no hotel. Não deu pra me despedir.

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Mas valeu cada segundo. Foi bom demais, fez um bem danado pra mim esse namorico de sete horas e meia.

Em suma:

*Ele é muito cabeça;
*Ele é muito legal;
*Ele canta muito bem;
*Ele beija muito bem;
*E agora ele está MUITO longe!

E eu comprovei uma coisa: o Acre existe! Posso atestar!

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sábado, 26 / junho / 2004 at 6:47 pm Deixe um comentário


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Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir. Gibran Khalil Gibran